Dia 7, de seis meses atrás. Dia 7 de todo mês. Dia 7 de domingo, um domingo depois das 7 horas. Aquele dia 7 que cai a 7 palmos do chão, partida em bem mais que 7 pedaços, chorei por bem mais que 7 horas, lembrei por bem mais que 7 dias. Odiei mais que 7 pessoas. Escrevi muito mais que 7 palavras. Senti não apenas 7 tipos de sentimentos, e mesmo que sejam a apenas seis meses que mais que 7 tijolos te trancaram no escuro, com um escrito mal feito de mais que 7 palavras, por quem nem te amava há mais de 7 anos. Mesmo que sejam só seis meses hoje, nesse dia 7, parecem 7 décadas de ausência, 7 décadas de saudade, 7 décadas de lágrimas, 7 décadas que nunca seriam suficientes pra dar adeus há mais de 7 anos. Sua falta é sentida, por bem mais que 7 horas na semana, 7 é um número pequeno pra imensidão que era você.
"Se tem uma coisa que aprendi, é isso: todos nós queremos que tudo fique bem. Nem mesmo desejamos que as coisas sejam fantásticas, maravilhosas ou extraordinárias. Satisfeitos, aceitamos o bem, porque, na maior parte do tempo, bem é o suficiente." - David Levithan
segunda-feira, 7 de dezembro de 2020
sexta-feira, 27 de novembro de 2020
Dois amores
Está tudo aqui ainda, sua risada.
Meu nome, meu apelido.
Sua voz.
Ecoa.
Como um frase gritada em um vazio.
Ecoa.
Não some.
Permanece.
Se prolonga.
Me alivia te ouvir.
Me dói ainda lembrar.
Fere mais ainda cogitar esquecer.
Como esqueci a dele.
Tenho dois amores que se foram.
Um só coração partido profundamente, por duas vezes.
Duas cicatrizes incuraveis.
Lembranças inapagáveis.
Pessoas insubstituiveis.
Dois cais destruidos pela vida.
Um barco sem rumo.
Dois galos feios, ganhos de pessoas lindas.
Pura ironia.
Justo galos que não tem empatia por mim.
Porcelana e tecido.
Pesado e leve.
Quebrável e rasgavel.
Não agradavel aos olhos, mas aceleram o coração.
Um amor que me carregou na garupa.
Um amor que me carregou no passageiro.
Um que adoçava os morangos.
Um que não colocava cebola nas panquecas.
Dois amores que me compravam doces.
Dois amores que me protegiam.
Dois amores que sorriram comigo por sete ou oito anos.
Dois amores que a vida me tirou de maneira cruel.
Duas ausencias não preenchidas.
Milhares de lágrimas caidas.
Noites mal dormidas.
Fins sem despedidas.
Ponto final sem conclusão.
Planos rasgados.
Vidas desperdiçadas.
Uma vida se vai por muitos erros e vicios.
Outra se vai por ausencia deles.
Vida injusta.
Vida ingrata.
Vida cruel.
Vida sem escolhas.
Vida e suas malditas surpresas.
É a vida nos fazendo sobreviver.
Sobreviver sem ele, e sem você.
Me tirando algo, pra depois tirar tudo de novo.
Me fazendo pedalar minha bicicleta sozinha, e dirigir por conta.
Me fazendo aceitar, e viver sem ele, e sem você.
sexta-feira, 6 de novembro de 2020
No ano que vem
Naquela passarela onde as luzes da cidade brilham numa imensidão de se perder de vista, a minha visão preferida de todos os fins de tardes trabalhados, onde a escuridão faz tudo parecer mais bonito, é o lugar onde mais me doi. Ver tudo aquilo, e pensar que você nunca verá, será que você também já viu? Espero do fundo do coração que sim.
Pensei em ir ver sua lápide no dia de finados, mas você não está lá, você não está em lugar nenhum e está em todos os lugares.
Eu falo muito de você para os outros, eu tinha um amigo que isso, ou aquilo, falo de você no passado, como se não lembrasse de você todos os dias e não chorasse por você todas as semanas, falo como eu comento sobre o clima de ontem, como se estivesse lá, e não estar fosse normal. Falo como se eu não sentisse sua falta o tempo todo e tudo estivesse no passado. Queria não ser assim, só que eu não sei ser honesta comigo em publico. Transparecer era com você, não comigo. Quando menos espero estou fazendo alguém rir, enquanto choro por dentro.
Ser assim, me dói tanto agora. Dizer que estou otima sendo que eu estava chorando no volante minutos antes.
Era ótimo ter você, ser mau humorada e chata quando eu tava de mau humor, chorar se eu sentisse vontade e rir em horas felizes. É tão dificil ser amada pelos outros mostrando quem somos realmente. E ser valorizada e compreendida pelo todo. Como era com você.
Pensei em guardar esse galo daqui do lado da cama, os percevejos coloridos da parede, os livros, as miniaturas, a camiseta, os bilhetes e as fotos. Assim eu te esqueceria aos poucos, doeria menos, porém não são as coisas que me deu que me lembram você. Minhas memórias parecem querer eternizar o replay em você, e memórias não tem como apagar.
Fazem exatamente cinco meses que eu te perdi. Que eu me perdi. Que tudo está errado, que nada está bem, que tudo me dói e que tudo é saudade.
Que falta me faz, ser protegida por você.
Me sinto como um navio quebrado perdido em alto mar, em uma tempestade sem fim e sem um farol pra me guiar.
Espero que você esteja bem, porque eu não estou. E se você tivesse ideia do quanto tem me feito sofrer, tenho certeza que você choraria ai de cima. Logo você que só me trazia conforto e risos está acabando comigo.
É isso, eu não to preparada pra viver isso aqui sem você, tá muito difícil.
Talvez no ano que vem, talvez eu consiga não sentir mais tudo isso, talvez doa menos. Talvez. Mas só no ano que vem.
segunda-feira, 12 de outubro de 2020
Sobre o caminho, e não a chegada
Amar dói
Não amar dói
Sentir dói
Não sentir dói
Ter alguém dói
Não ter ninguém dói
Sorrir dói
Não sorrir dói
Abraçar dói
Não poder abraçar dói
Chorar dói
Não ter motivo pra chorar dói
Viver dói
Não poder viver dói
Sentir falta dói
Não sentir falta dói
Dizer adeus dói
Não dizer adeus dói
Falar algo dói
Não falar dói
Sonhar dói
Não sonhar dói
Cuidar dói
Não cuidar dói
A verdade dói
Não ter verdade dói
Tudo dói
Mas o nada, dói mais ainda.
sábado, 11 de julho de 2020
Meu cais
Oi,
Não tá fácil sabe, sem você aqui. Ainda me dói tanto. Do nada me pego pensando em você, lembrando de algo ou chorando. De repente as lágrimas caem, em alguma música, enquanto cozinho, ou dirijo. Eu não consigo ouvir aquela música mais, e não sei como preencher os vazios que você deixou.
Já faz um pouco mais de dois meses, eu aceitei que você se foi.
Não é porque aceitei que eu consegui dar um passo se quer pra longe de tudo o que construi com você incluso.
Talvez eu reescrever as coisas sem você.
É engraçado sabe? Porque nos beijamos uma vez, numa época que estavamos perdidos tentando nos encontrar, por sermos um garoto e uma garota, por você ser lindo aos olhos humanos, ninguém entende sabe? Não entendem o que eu realmente sentia por você, sua importancia na minha vida. Elas não entendem o seu papel, o meu papel.
O mundo não compreende, que fui seu desvio de conduta inicial, e você foi meu cais. Ninguém sabe como eu precisei de um cais naqueles anos difíceis. Quando tudo parecia estar saindo dos trilhos, você apareceu e me deu conforto, toda a segurança que eu não sentia em alguém desde meus 14 anos, toda a proteção, e preocupação que eu sentia tanta falta, que eu acreditei que não sentiria mais, surgiu discreto e acolhedor como um nascer de sol.
Não te amei pelos seus lindos olhos azuis, a grande verdade, é que eles não faziam a menor diferença para eu. Te amei pela sua presença constante, seu interesse na minha vida, nos meus gostos, por você se importar, se preocupar... Te amei por eu ter certeza que você estaria lá, que você faria por eu, que você viria me socorrer, que eu não estava só, que eu finalmente tinha um protetor de novo, uma companhia constante.
Dizem que, é fácil viver com algo que nunca se teve, mas é difícil conviver com o que já provou.
Eu nunca tive um amor romantico, então quando me desesperei por te perder, todos pensaram que você era esse tipo de amor pra eu, afinal, você era incrivel, maravilhoso por dentro e por fora. Não é culpa deles pensarem isso, é a mentalidade do mundo, um garoto lindo morto, com uma garota desesperada por perder seu amor.
Você era um amor meu. Não esse tipo. Não o romantico. Você era como se fosse minha familia, você me fez sentir protegida, ter você, era como ter um lar pra voltar em cada fim de dia. Vc entrou na minha vida nos anos que mais me sentia deixada de lado, no ano que meu irmão se casou, minha melhor amiga estava noiva, e eu sentia o vazio dessas presenças. Deus me deu você.
Eu te amei, te amo, como alguêm da familia, eu confiei em você como provavelmente não confiei nem no meu irmão assim, pois com você, não havia duvidas, pra você nada era dificil, nada era um fardo, não haviam desculpas e você me conhecia tão bem, como minha mãe e um ou dois amigos conhecem, você saberia escrever um manual sobre mim. Deus, como eu te amava, meu cais, meu porto seguro, era tão bom saber que eu tinha você, meu confiavel escudeiro.
E agora me sento indefesa em meio a uma guerra chamada vida.
Nada vai apagar os anos em que você foi meu confortável e seguro lar.
Por isso, é tão difícil sem você, não tem como apagar tudo, não tem como simplesmente existir sem lembrar de você. Sinto que sem você a vida é um texto sem pontuação e acentuação. Meio sem sentido e difícil entender.
Obs, finalmente tenho um emprego, mas agora não tem você aqui pra revezar o volante durante uma viajem.
Saudades de você.
sábado, 13 de junho de 2020
Memórias turvas
Eu sei, você queria ir
Desculpe pela revolta, demorei três dias pra aceitar, aceitei pois não descobri nenhum ritual pra te trazer de volta, na grande realidade passei tanto tempo encarando suas coisas e com você vindo e voltando da memória que nem procurei uma saída. Só cai e me deixei afundar.
Foi ai que sua mãe me mostrou aquele trecho, grifado com caneta. Se você queria ir, porquê não venho ao menos me visitar uma vez na minha casa nova. Queria lembranças suas por aqui, risadas soltas no ar pra eu guardar num frasco e abrir ums frestinha toda vez que a saudade estivesse me matando.
Sei que você nunca vai ler isso aqui, mas só pra você saber, eu fui no seu velorio e funeral. Queria poder te informar se sua última paixão foi lá e chorou por você, só que a realidade é que nada era nitido, todos eram borrões embaçados pelas lágrimas, ou simplesmente pés, passando pra lá e pra cá, parados. Eu não faço ideia de quem estava lá, só da sua mãe, quando segurei a mão dela e choramos te chamando de nosso menino.
Bebi uma garrafinha de coca-cola e comi um salgadinho, não tinha gosto de nada, eu quis beber a coca por você, já que você nunca mais terá a chance, mas não tinha gosto. Quis dirigir por você, mas o peso da tristeza tornou difícil.
Eu odiei tudo aquilo, ver pessoas que não te conheciam ao seu redor fingindo se importar, ver seu caixão fechar com seu corpo pálido e sem vida dentro, ver os tijolos serem colocados um acima do outro lacrando sua lápide, ver seu nome escrito naquilo, ter que dizer adeus.
Tenho pulado a nossa música, não quero chorar por você de novo, agora que sei que era o que você queria.
Pensei em algumas coisas, e provavelmente fui seu desvio de conduta. Então,
Ei, desculpa por ter te feito chorar aquele dia, desculpa por não ter me importado de você sair sem rumo de carro por causa da minha insenssibilidade. Desculpa, não ter te valorizado naquela época, ter demorado pra te amar, te tornar insubstituivel. Desculpa por ter feito você acordar tantas madrugadas pra me buscar. Desculpa ter feito você pegar o último voo naquele dia, por ter duvidado de você. Desculpa ser tão pobre quanto você a ponto de não ter te pago um lanche se quer enquanto passava três horas esperando junto a insetos famintos pelo meu salto de bungee jump.
E só pra você saber, eu briguei por você, mais de uma vez, te defendi, e nunca neguei nossa amizade, só ha afirmei, sempre.
Sinto falta da sua indelicadeza, sua chatice, de ser ignorada por você no celular, de você brigar comigo, rir comigo...
Sinto sua falta
terça-feira, 9 de junho de 2020
Desculpe
Três dias sem você. Foi o primeiro dia que não chorei desesperada por horas. Quando acordei você foi meu primeiro pensamento, ouço você me chamar, rir, vejo você. E aceito que você não está mais aqui, estou tendo que fazer isso ha três dias. Não chorei. Não até ir fazer o almoço e olhar o alho, e lembrar que você também não gostava de cebola. Não até meu pai me abraçar depois de falar sobre você. Não até ouvir uma música triste. Não até entrar no carro.
Você não se orgulharia de mim. Você que nunca gostou de me ver pra baixo, e agora não tá aqui pra tirar minhas cobertas em pleno sábado de manhã e falar pra eu parar de depressão que o dia tava lindo. Ontem o dia estava horrível, só choveu, sinto que o mundo está triste. Desde que você foi enterrado não fez mais sol, seu funeral foi o último dia de sol. E eu, bem eu desabei a chorar logo na madrugada do quarto dia, porque parece piada sabe? A vida parece estar curtindo com minha dor. No dia do seu funeral eu entrei no carro, e liguei o rádio, começou a tocar aquela música, a que você uma vez me disse que era minha música, então eu voltei a chorar. Hoje eu abri a gaveta pegar um pijama e me deparei com uma camiseta cinza, achei que era a sua, a que você deu pra eu dormir. Não era. Fui procurá-la desesperada, encontrei ela no varal gelada, e a trouxe pra dentro. Desabei olhando pra ela, pensando em quando você me deu. Coloquei aquele galo estranho que você me deu no lugar que ficava o abajur, você me dava coisas estranhas, me dizia que quando via algo assim pensava como eu ia adorar, e me trazia, em plena terça ou quarta-feira. Assim como aquelas tortinhas de pacote do mercado perto das nossas casas, quase todo dia você me trazia uma, durante um tempo. E tinha as vezes que eu chegava e tinha um pedaço de bolo, ou duas panquecas na mesa, pois nossos horários não batiam sempre, e você simplesmente não me deixava de lado.
Desculpa por não ser forte. Desculpa por ter chorado abraçada a camiseta que você me deu, com o galo estranho me observando, ouvindo coldplay, deitada na cama. A culpa é sua, você está em todos os cantos, mesmo sem te procurar você surge, surgiu na minha parede, nos percevejos coloridos dos meus papeis pregados nela, e no meu proprio secador de cabelo, que você subia pegar pra usar sem pedir.
Não vou mentir, te procurei em seguida, procurei por pedaços seus, palavras suas, mesmo que você nunca mais vá pronúncia-las ou escrevê-las. E é claro que te encontrei. Num estúpido pedaço de papel higiênico, e num pedaço mal arrancado de caderno, cheio de picotes. Tudo em improviso, tudo espontâneo, nada programado, igualzinho você era. Um tropeço. Do nada acontecia.
Eu nunca tava preparada, e você fazia tudo, sem motivos, ou avisos. Igualzinho a domingo. Você foi pra sempre, sem avisar, do nada, e eu, só estou tendo que lidar com isso.
Com todos os pedaços de você espalhados pelo quarto. Será que se eu juntar todos eles, consigo te trazer de volta?
domingo, 7 de junho de 2020
Só até amanhã
Ontem eu passei perto da sua casa e pensei em passar te ver, acabei não indo. E agora, eu nunca mais poderei fazer isso pois você se foi.
Essa semana conversei com você pra você vir arrumar a antena caida, e acabamos conversando sobre as nossas torneiras sem pressão que não esquentam, agora todas as vezes que olhar pra antena caida vai me doer, sempre que eu for lavar louça vou lembrar da nossa última conversa. E quando eu for comer pudim vai vir um flashback das nossas últimas risadas juntos. Aquelas que eu não fazia ideia de que seriam as últimas.
No fim, você morreu, e não aprendemos a fazer fogo pro churrasco, e eu vou ter que acabar aprendendo sozinha, pois você foi, não me avisou, não disse adeus, e eu fiquei.
Hoje tava parecendo uma piada de mal gosto da vida, você morrer? Claro que não, eu pensei é brincadeira, eu não consigo aceitar, eu não estou preparada pra isso, essa hipotese não esta no roteiro de todas as possibilidades da minha vida, você estava lá no futuro, em tudo, no meu próximo salto de bungee jump, num churrasco, andando de bicicleta, arrumando a antena, comendo bolo feito por você, rindo, andando no seu carro novo, chorando pela morte da Lumi. O dia que fui buscar a Lumi, você foi comigo, a primeira foto dela tem suas mãos, e ela realmente ama você, ela que tem cancêr continua aqui, e você, bem, você se foi.
Você se foi,
Não tem depois,
Nem mês que vem,
Só restou o que passamos, e eu nunca escrevi sobre você, pois você nunca foi um passado a ser esquecido, você era parte do meu presente, da minha vida.
Você que só me deu felicidades, só me fez bem e me deu sorrisos, está acabando comigo.
Dói tanto, aqui sem você.
Era pra eu escrever isso pra você na nossa velhice, talvez depois de você ter encontrado um amor, ou depois de termos desistido do amor, e termos acabado juntos de novo. As vezes eu pensava, se tudo der errado tenho ele, mas parece que agora ta tudo dando errado e não tenho você. Você tem me machucado tanto em um único dia incompleto, como nunca havia me machucado em oito anos, nem por um segundo.
Como você pode fazer isso comigo, logo você que sempre me protegeu.
Depois de chorar desesperadamente agachada sob a água do chuveiro, implorando pra dor ir e você voltar, me dou de cara com um dia de sol radiante. Deus! Como eu odeio sol, ele é sempre ofencivo, enquanto a gente é tempestade por dentro ele brilha, mesmo quando a gente quer que o dia acabe, ele insistentemente continua a brilhar.
Era sol la fora, mas aqui dentro tudo está em uma chuvosa noite.
O que eu faço com você? Com todos os pedaços de você pela minha vida, pela casa, pelo carro, em minha mente?
Até nossos risos me dão vontade de chorar, e meu olhos não aguentam mais.
O que faço com meus planos que incluiam você? O que faço agora se ninguém mais vai me socorrer?
O que faço com a vida que incluia você?
E o maldito sol que insiste em ofuscar minha dor.
O que faço enquanto você já se foi rápidamente e eu tenho que continuar mesmo que vagarosamente sem você.
E com quem é que vou viajar fim do ano para o país vizinho, com quem vou revezar o volante se não com você? Isso não tá certo, como eu faço pra preencher todas essas lacunas que você deixou na minha vida?
Estou implorando pra que amanhã quando eu acordar tudo isso seja um pesadelo apenas, não é real, é só uma estúpida brincadeira, eu continuo repetindo para mim enquanto as lágrimas não param de cair.
Tá difícil até mesmo olhar para minha cachorrinha, eu olho pra ela e vejo você, lembro de você, ouço você e minha garganta dói, meus olhos imploram pra parar, mas minha mente continua te trazendo, e meu coração continua se agarrando aos seus fragmentos vivos na memória.
Como eu queria um pouco de amnésia, por uma hora apenas, pro meu corpo descansar, sinto que ele está entrando em colapso, porque eu não consigo parar de transbordar a dor dessa ausência.
Se eu pudesse trocar dez vidas pela sua, faria, você me diria que é errado, mas ser correto sempre foi coisa sua, não minha.
Se eu pudesse socar os paramédicos que não se apressaram a te salvar.
Se eu pudesse voltar ao ontem e ter passado na sua casa fim de tarde, e ter comido o último bolo feito por você e dado mais uma risada com você, só uma...
Porém, não tô podendo muita coisa, não dá, não tem como evitar. O ontem acabou, e a vida está me jogando esse hoje guela a baixo.
Você pensou como seria seu funeral? Se eu estaria lá?
Que bom, que você comprou um carro novo, que bom que você viajou nessa virada de ano, que bom que você comeu bolo ontem quando tava com vontade. Vou comprar aquele chip que você recomendou, vou continuar dirigindo como você me ensinou, comendo um mousse que não é o seu, sem saber fazer fogo pra churrasco, encarando o bichinho que você me deu, pegando e recolocando o livro que era seu, sem carona pós show, sem alguém jovem e mau humorado pra concordar comigo, ouvindo aquela música que você dizia ser sobre eu, tomando chimarrão, só... Vou continuar, é o que você me diria pra fazer.
Só não sou boa em fazer o que os outros pedem.
domingo, 2 de fevereiro de 2020
O amor fere
O amor machuca, amar dói.
Se fosse mentira eu não teria chorado tanto por quem amei, por quem amo.
Essas lágrimas não estariam escorrendo por meu rosto em uma velocidade constante a ponto de trancar minhas narinas e me mostrar como é difícil respirar só de imaginar perder um amor.
Minha garganta não arderia por minha respiração ofegante, e não seria tão difícil tentar engolir e respirar ao mesmo tempo.
O amor fere, amar lateja.
Lateja como minha cabeça, que busca uma solução pra não perder você.
Você que eu tanto amo, e a vida insiste em lhe machucar pra me fazer sangrar.
Sangrar lágrimas salgadas, e transparentes, tão cristalinas quando o amor mais puro que possuo, o seu.
O amor mata, o amor deixa cicatrizes.
Se te amar um dia me levasse a um sacrifício, eu daria minha vida por você sem pensar.
Mas se não acontecer, e a vida te levar de mim, eu vou ficar aqui com uma eterna cicatriz na alma, sentindo o amago todas as vezes que lembrar de nós, e ir morrendo aos poucos com sua ausência me sufocando, e a vida me obrigando a viver em um mundo onde você já não existe, em um momento em que já vão ter lhe apagado, e eu vou continuar a te amar.
O amor machuca, porque segurar a felicidade com seus próprios braços, e ver ela ser tomada de você, dói, muito.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
Carta Dois
Querido Bastião,
Foi na década passada que todas aquelas coisas aconteceram, aliás, como vai você? Eu sei, você não pode mais me responder.
Será que você teria um riso pra me dar, por cada lágrima que derramei? Aposto que sim, e seria um montão, assim como a quantidade de açucar que você colocava nas coisas.
Foi em um desses janeiros que te escrevi a última vez não é? Acho que sim, num desses janeiros. Por que será que o verão sempre machuca mais. Sei lá, parece injusto sabe? Como o sol insiste em brilhar e ofuscar até nos dias mais tristes, como ele prevalece sobre os minutos de chuva tão rápido. Logo a chuva que reflete a alma da gente, chorando. Eu nunca fui dias ensolarados, eu sei, eu sei. Na nossa época nós éramos dias longos de verão, reluzindo com sorrisos facéis. Hoje em dia, tá tão difícil sorrir, tá tão difícil ser eu, que até dói respirar, e parece que cada riso demorado é insuficiente. É tão difícil não ser nós. É difícil seguir sem você me guiando, me carregando na garupa da sua bicicleta.
Estive me perguntando, se por acaso, você foi como eu na nossa época, você escondeu sua infelicidade e sorriu para mim? Pois quando eu estou com ele, parece que dói um pouco menos, o ar fica menos rarefeito e é até possível respirar sem se intoxicar. Ele purifica o ar com a gargalhada inocente dele. É meu trailer favorito, minha trilha sonora do momento, o único inevitavel que sinto falta mesmo com todo o cansaço e a irritação diaria. Eu fui seu sol nas tempestades? Eu te fiz rir quando você estava estressado e fadigado da vida? Como ele tem feito comigo? Espero realmente que sim.
Passei tantos anos da minha vida pensando que eu nunca ia conseguir te compensar por todos os dias felizes da minha infância com você, imaginei como você agiria sabendo que não me tornei lá grande coisa, talvez até uma decepção e um encosto, como tenho me sentido. Mas eu notei, nesse momento, em alguns momentos do meu ontem que me vem a mente... Minha risada também foi sua trilha sonora do verão né? Que bom que no fim, foram suas últimas memórias comigo, assim você não é obrigado a ver como meu silêncio é assustador, e como me custa sorrir.
Mas, qual era mesmo o assunto que vim aqui te contar... Ah é mesmo! Você sabia que existe música no celular agora? Os celulares são tão incríveis, como telefones moveis sabe? tem tudo neles, você não precisaria do seu rádio fm, ou am, da época, nem de um papel e uma caneta. Apenas o celular bastaria, pra ouvir uma trilha sonora triste, que te faz pensar em seus fracassos, arrependimentos e desamores, e nele mesmo você escreveria sobre eles. Como fiz agora. E a notícia final dessa carta é essa: sem novidades nessa nova década também, o amor continua não existindo mais.
Álias, hoje choveu forte, me molhei bastante. Tem sido um verão chuvoso, até mesmo os dias tem chorado. Você gostava de qual estação? Eu nunca tive a chance de perguntar... Eu amo o inverno, frio e sem cor, parece meu reflexo. Caso você tenha curiosidade em saber como me tornei.
Com amor, sua afilhada.