terça-feira, 9 de junho de 2020

Desculpe

Três dias sem você. Foi o primeiro dia que não chorei desesperada por horas. Quando acordei você foi meu primeiro pensamento, ouço você me chamar, rir, vejo você. E aceito que você não está mais aqui, estou tendo que fazer isso ha três dias. Não chorei. Não até ir fazer o almoço e olhar o alho, e lembrar que você também não gostava de cebola. Não até meu pai me abraçar depois de falar sobre você. Não até ouvir uma música triste. Não até entrar no carro.

Você não se orgulharia de mim. Você que nunca gostou de me ver pra baixo, e agora não tá aqui pra tirar minhas cobertas em pleno sábado de manhã e falar pra eu parar de depressão que o dia tava lindo. Ontem o dia estava horrível, só choveu, sinto que o mundo está triste. Desde que você foi enterrado não fez mais sol, seu funeral foi o último dia de sol. E eu, bem eu desabei a chorar logo na madrugada do quarto dia, porque parece piada sabe? A vida parece estar curtindo com minha dor. No dia do seu funeral eu entrei no carro, e liguei o rádio, começou a tocar  aquela música, a que você uma vez me disse que era minha música, então eu voltei a chorar. Hoje eu abri a gaveta pegar um pijama e me deparei com uma camiseta cinza, achei que era a sua, a que você deu pra eu dormir. Não era. Fui procurá-la desesperada, encontrei ela no varal gelada, e a trouxe pra dentro. Desabei olhando pra ela, pensando em quando você me deu. Coloquei aquele galo estranho que você me deu no lugar que ficava o abajur, você me dava coisas estranhas, me dizia que quando via algo assim pensava como eu ia adorar, e me trazia, em plena terça ou quarta-feira. Assim como aquelas tortinhas de pacote do mercado perto das nossas casas, quase todo dia você me trazia uma, durante um tempo. E tinha as vezes que eu chegava e tinha um pedaço de bolo, ou duas panquecas na mesa, pois nossos horários não batiam sempre, e você simplesmente não me deixava de lado.

Desculpa por não ser forte. Desculpa por ter chorado abraçada a camiseta que você me deu, com o galo estranho me observando, ouvindo coldplay, deitada na cama. A culpa é sua, você está em todos os cantos, mesmo sem te procurar você surge, surgiu na minha parede, nos percevejos coloridos dos meus papeis pregados nela, e no meu proprio secador de cabelo, que você subia pegar pra usar sem pedir.

Não vou mentir, te procurei em seguida, procurei por pedaços seus, palavras suas, mesmo que você nunca mais vá pronúncia-las ou escrevê-las. E é claro que te encontrei. Num estúpido pedaço de papel higiênico, e num pedaço mal arrancado de caderno, cheio de picotes. Tudo em improviso, tudo espontâneo, nada programado, igualzinho você era. Um tropeço. Do nada acontecia.

Eu nunca tava preparada, e você fazia tudo, sem motivos, ou avisos. Igualzinho a domingo. Você foi pra sempre, sem avisar, do nada, e eu, só estou tendo que lidar com isso.

Com todos os pedaços de você espalhados pelo quarto. Será que se eu juntar todos eles, consigo te trazer de volta? 

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