Ontem eu passei perto da sua casa e pensei em passar te ver, acabei não indo. E agora, eu nunca mais poderei fazer isso pois você se foi.
Essa semana conversei com você pra você vir arrumar a antena caida, e acabamos conversando sobre as nossas torneiras sem pressão que não esquentam, agora todas as vezes que olhar pra antena caida vai me doer, sempre que eu for lavar louça vou lembrar da nossa última conversa. E quando eu for comer pudim vai vir um flashback das nossas últimas risadas juntos. Aquelas que eu não fazia ideia de que seriam as últimas.
No fim, você morreu, e não aprendemos a fazer fogo pro churrasco, e eu vou ter que acabar aprendendo sozinha, pois você foi, não me avisou, não disse adeus, e eu fiquei.
Hoje tava parecendo uma piada de mal gosto da vida, você morrer? Claro que não, eu pensei é brincadeira, eu não consigo aceitar, eu não estou preparada pra isso, essa hipotese não esta no roteiro de todas as possibilidades da minha vida, você estava lá no futuro, em tudo, no meu próximo salto de bungee jump, num churrasco, andando de bicicleta, arrumando a antena, comendo bolo feito por você, rindo, andando no seu carro novo, chorando pela morte da Lumi. O dia que fui buscar a Lumi, você foi comigo, a primeira foto dela tem suas mãos, e ela realmente ama você, ela que tem cancêr continua aqui, e você, bem, você se foi.
Você se foi,
Não tem depois,
Nem mês que vem,
Só restou o que passamos, e eu nunca escrevi sobre você, pois você nunca foi um passado a ser esquecido, você era parte do meu presente, da minha vida.
Você que só me deu felicidades, só me fez bem e me deu sorrisos, está acabando comigo.
Dói tanto, aqui sem você.
Era pra eu escrever isso pra você na nossa velhice, talvez depois de você ter encontrado um amor, ou depois de termos desistido do amor, e termos acabado juntos de novo. As vezes eu pensava, se tudo der errado tenho ele, mas parece que agora ta tudo dando errado e não tenho você. Você tem me machucado tanto em um único dia incompleto, como nunca havia me machucado em oito anos, nem por um segundo.
Como você pode fazer isso comigo, logo você que sempre me protegeu.
Depois de chorar desesperadamente agachada sob a água do chuveiro, implorando pra dor ir e você voltar, me dou de cara com um dia de sol radiante. Deus! Como eu odeio sol, ele é sempre ofencivo, enquanto a gente é tempestade por dentro ele brilha, mesmo quando a gente quer que o dia acabe, ele insistentemente continua a brilhar.
Era sol la fora, mas aqui dentro tudo está em uma chuvosa noite.
O que eu faço com você? Com todos os pedaços de você pela minha vida, pela casa, pelo carro, em minha mente?
Até nossos risos me dão vontade de chorar, e meu olhos não aguentam mais.
O que faço com meus planos que incluiam você? O que faço agora se ninguém mais vai me socorrer?
O que faço com a vida que incluia você?
E o maldito sol que insiste em ofuscar minha dor.
O que faço enquanto você já se foi rápidamente e eu tenho que continuar mesmo que vagarosamente sem você.
E com quem é que vou viajar fim do ano para o país vizinho, com quem vou revezar o volante se não com você? Isso não tá certo, como eu faço pra preencher todas essas lacunas que você deixou na minha vida?
Estou implorando pra que amanhã quando eu acordar tudo isso seja um pesadelo apenas, não é real, é só uma estúpida brincadeira, eu continuo repetindo para mim enquanto as lágrimas não param de cair.
Tá difícil até mesmo olhar para minha cachorrinha, eu olho pra ela e vejo você, lembro de você, ouço você e minha garganta dói, meus olhos imploram pra parar, mas minha mente continua te trazendo, e meu coração continua se agarrando aos seus fragmentos vivos na memória.
Como eu queria um pouco de amnésia, por uma hora apenas, pro meu corpo descansar, sinto que ele está entrando em colapso, porque eu não consigo parar de transbordar a dor dessa ausência.
Se eu pudesse trocar dez vidas pela sua, faria, você me diria que é errado, mas ser correto sempre foi coisa sua, não minha.
Se eu pudesse socar os paramédicos que não se apressaram a te salvar.
Se eu pudesse voltar ao ontem e ter passado na sua casa fim de tarde, e ter comido o último bolo feito por você e dado mais uma risada com você, só uma...
Porém, não tô podendo muita coisa, não dá, não tem como evitar. O ontem acabou, e a vida está me jogando esse hoje guela a baixo.
Você pensou como seria seu funeral? Se eu estaria lá?
Que bom, que você comprou um carro novo, que bom que você viajou nessa virada de ano, que bom que você comeu bolo ontem quando tava com vontade. Vou comprar aquele chip que você recomendou, vou continuar dirigindo como você me ensinou, comendo um mousse que não é o seu, sem saber fazer fogo pra churrasco, encarando o bichinho que você me deu, pegando e recolocando o livro que era seu, sem carona pós show, sem alguém jovem e mau humorado pra concordar comigo, ouvindo aquela música que você dizia ser sobre eu, tomando chimarrão, só... Vou continuar, é o que você me diria pra fazer.
Só não sou boa em fazer o que os outros pedem.
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