sábado, 13 de junho de 2020

Memórias turvas

Eu sei, você queria ir

Desculpe pela revolta, demorei três dias pra aceitar, aceitei pois não descobri nenhum ritual pra te trazer de volta, na grande realidade passei tanto tempo encarando suas coisas e com você vindo e voltando da memória que nem procurei uma saída. Só cai e me deixei afundar.

Foi ai que sua mãe me mostrou aquele trecho, grifado com caneta. Se você queria ir, porquê não venho ao menos me visitar uma vez na minha casa nova. Queria lembranças suas por aqui, risadas soltas no ar pra eu guardar num frasco e abrir ums frestinha toda vez que a saudade estivesse me matando.

Sei que você nunca vai ler isso aqui, mas só pra você saber, eu fui no seu velorio e funeral. Queria poder te informar se sua última paixão foi lá e chorou por você, só que a realidade é que nada era nitido, todos eram borrões embaçados pelas lágrimas, ou simplesmente pés, passando pra lá e pra cá, parados. Eu não faço ideia de quem estava lá, só da sua mãe, quando segurei a mão dela e choramos te chamando de nosso menino.

Bebi uma garrafinha de coca-cola e comi um salgadinho, não tinha gosto de nada, eu quis beber a coca por você, já que você nunca mais terá a chance, mas não tinha gosto. Quis dirigir por você, mas o peso da tristeza tornou difícil.

Eu odiei tudo aquilo, ver pessoas que não te conheciam ao seu redor fingindo se importar, ver seu caixão fechar com seu corpo pálido e sem vida dentro, ver os tijolos serem colocados um acima do outro lacrando sua lápide, ver seu nome escrito naquilo, ter que dizer adeus.

Tenho pulado a nossa música, não quero chorar por você de novo, agora que sei que era o que você queria.

Pensei em algumas coisas, e provavelmente fui seu desvio de conduta. Então,

Ei, desculpa por ter te feito chorar aquele dia, desculpa por não ter me importado de você sair sem rumo de carro por causa da minha insenssibilidade. Desculpa, não ter te valorizado naquela época, ter demorado pra te amar, te tornar insubstituivel. Desculpa por ter feito você acordar tantas madrugadas pra me buscar. Desculpa ter feito você pegar o último voo naquele dia, por ter duvidado de você. Desculpa ser tão pobre quanto você a ponto de não ter te pago um lanche se quer enquanto passava três horas esperando junto a insetos famintos pelo meu salto de bungee jump.

E só pra você saber, eu briguei por você, mais de uma vez, te defendi, e nunca neguei nossa amizade, só ha afirmei, sempre.

Sinto falta da sua indelicadeza, sua chatice, de ser ignorada por você no celular, de você brigar comigo, rir comigo...


Sinto sua falta

terça-feira, 9 de junho de 2020

Desculpe

Três dias sem você. Foi o primeiro dia que não chorei desesperada por horas. Quando acordei você foi meu primeiro pensamento, ouço você me chamar, rir, vejo você. E aceito que você não está mais aqui, estou tendo que fazer isso ha três dias. Não chorei. Não até ir fazer o almoço e olhar o alho, e lembrar que você também não gostava de cebola. Não até meu pai me abraçar depois de falar sobre você. Não até ouvir uma música triste. Não até entrar no carro.

Você não se orgulharia de mim. Você que nunca gostou de me ver pra baixo, e agora não tá aqui pra tirar minhas cobertas em pleno sábado de manhã e falar pra eu parar de depressão que o dia tava lindo. Ontem o dia estava horrível, só choveu, sinto que o mundo está triste. Desde que você foi enterrado não fez mais sol, seu funeral foi o último dia de sol. E eu, bem eu desabei a chorar logo na madrugada do quarto dia, porque parece piada sabe? A vida parece estar curtindo com minha dor. No dia do seu funeral eu entrei no carro, e liguei o rádio, começou a tocar  aquela música, a que você uma vez me disse que era minha música, então eu voltei a chorar. Hoje eu abri a gaveta pegar um pijama e me deparei com uma camiseta cinza, achei que era a sua, a que você deu pra eu dormir. Não era. Fui procurá-la desesperada, encontrei ela no varal gelada, e a trouxe pra dentro. Desabei olhando pra ela, pensando em quando você me deu. Coloquei aquele galo estranho que você me deu no lugar que ficava o abajur, você me dava coisas estranhas, me dizia que quando via algo assim pensava como eu ia adorar, e me trazia, em plena terça ou quarta-feira. Assim como aquelas tortinhas de pacote do mercado perto das nossas casas, quase todo dia você me trazia uma, durante um tempo. E tinha as vezes que eu chegava e tinha um pedaço de bolo, ou duas panquecas na mesa, pois nossos horários não batiam sempre, e você simplesmente não me deixava de lado.

Desculpa por não ser forte. Desculpa por ter chorado abraçada a camiseta que você me deu, com o galo estranho me observando, ouvindo coldplay, deitada na cama. A culpa é sua, você está em todos os cantos, mesmo sem te procurar você surge, surgiu na minha parede, nos percevejos coloridos dos meus papeis pregados nela, e no meu proprio secador de cabelo, que você subia pegar pra usar sem pedir.

Não vou mentir, te procurei em seguida, procurei por pedaços seus, palavras suas, mesmo que você nunca mais vá pronúncia-las ou escrevê-las. E é claro que te encontrei. Num estúpido pedaço de papel higiênico, e num pedaço mal arrancado de caderno, cheio de picotes. Tudo em improviso, tudo espontâneo, nada programado, igualzinho você era. Um tropeço. Do nada acontecia.

Eu nunca tava preparada, e você fazia tudo, sem motivos, ou avisos. Igualzinho a domingo. Você foi pra sempre, sem avisar, do nada, e eu, só estou tendo que lidar com isso.

Com todos os pedaços de você espalhados pelo quarto. Será que se eu juntar todos eles, consigo te trazer de volta? 

domingo, 7 de junho de 2020

Só até amanhã

Ontem eu passei perto da sua casa e pensei em passar te ver, acabei não indo. E agora, eu nunca mais poderei fazer isso pois você se foi.

Essa semana conversei com você pra você vir arrumar a antena caida, e acabamos conversando sobre as nossas torneiras sem pressão que não esquentam, agora todas as vezes que olhar pra antena caida vai me doer, sempre que eu for lavar louça vou lembrar da nossa última conversa. E quando eu for comer pudim vai vir um flashback das nossas últimas risadas juntos. Aquelas que eu não fazia ideia de que seriam as últimas.

No fim, você morreu, e não aprendemos a fazer fogo pro churrasco, e eu vou ter que acabar aprendendo sozinha, pois você foi, não me avisou, não disse adeus, e eu fiquei.

Hoje tava parecendo uma piada de mal gosto da vida, você morrer? Claro que não, eu pensei é brincadeira, eu não consigo aceitar, eu não estou preparada pra isso, essa hipotese não esta no roteiro de todas as possibilidades da minha vida, você estava lá no futuro, em tudo, no meu próximo salto de bungee jump, num churrasco, andando de bicicleta, arrumando a antena, comendo bolo feito por você, rindo, andando no seu carro novo, chorando pela morte da Lumi. O dia que fui buscar a Lumi, você foi comigo, a primeira foto dela tem suas mãos, e ela realmente ama você, ela que tem cancêr continua aqui, e você, bem, você se foi.

Você se foi,

Não tem depois,

Nem mês que vem,

Só restou o que passamos, e eu nunca escrevi sobre você, pois você nunca foi um passado a ser esquecido, você era parte do meu presente, da minha vida.

Você que só me deu felicidades, só me fez bem e me deu sorrisos, está acabando comigo.

Dói tanto, aqui sem você.

Era pra eu escrever isso pra você na nossa velhice, talvez depois de você ter encontrado um amor, ou depois de termos desistido do amor, e termos acabado juntos de novo. As vezes eu pensava, se tudo der errado tenho ele, mas parece que agora ta tudo dando errado e não tenho você. Você tem me machucado tanto em um único dia incompleto, como nunca havia me machucado em oito anos, nem por um segundo.

Como você pode fazer isso comigo, logo você que sempre me protegeu.

Depois de chorar desesperadamente agachada sob a água do chuveiro, implorando pra dor ir e você voltar, me dou de cara com um dia de sol radiante. Deus! Como eu odeio sol, ele é sempre ofencivo, enquanto a gente é tempestade por dentro ele brilha, mesmo quando a gente quer que o dia acabe, ele insistentemente continua a brilhar.

Era sol la fora, mas aqui dentro tudo está em uma chuvosa noite.

O que eu faço com você? Com todos os pedaços de você pela minha vida, pela casa, pelo carro, em minha mente?

Até nossos risos me dão vontade de chorar, e meu olhos não aguentam mais.

O que faço com meus planos que incluiam você? O que faço agora se ninguém mais vai me socorrer?

O que faço com a vida que incluia você?

E o maldito sol que insiste em ofuscar minha dor.

O que faço enquanto você já se foi rápidamente e eu tenho que continuar mesmo que vagarosamente sem você.

E com quem é que vou viajar fim do ano para o país vizinho, com quem vou revezar o volante se não com você? Isso não tá certo, como eu faço pra preencher todas essas lacunas que você deixou na minha vida?

Estou implorando pra que amanhã quando eu acordar tudo isso seja um pesadelo apenas, não é real, é só uma estúpida brincadeira, eu continuo repetindo para mim enquanto as lágrimas não param de cair.

Tá difícil até mesmo olhar para minha cachorrinha, eu olho pra ela e vejo você, lembro de você, ouço você e minha garganta dói, meus olhos imploram pra parar, mas minha mente continua te trazendo, e meu coração continua se agarrando aos seus fragmentos vivos na memória.

Como eu queria um pouco de amnésia, por uma hora apenas, pro meu corpo descansar, sinto que ele está entrando em colapso, porque eu não consigo parar de transbordar a dor dessa ausência.

Se eu pudesse trocar dez vidas pela sua, faria, você me diria que é errado, mas ser correto sempre foi coisa sua, não minha.

Se eu pudesse socar os paramédicos que não se apressaram a te salvar.

Se eu pudesse voltar ao ontem e ter passado na sua casa fim de tarde, e ter comido o último bolo feito por você e dado mais uma risada com você, só uma...

Porém, não tô podendo muita coisa, não dá, não tem como evitar. O ontem acabou, e a vida está me jogando esse hoje guela a baixo.

Você pensou como seria seu funeral? Se eu estaria lá?

Que bom, que você comprou um carro novo, que bom que você viajou nessa virada de ano, que bom que você comeu bolo ontem quando tava com vontade. Vou comprar aquele chip que você recomendou, vou continuar dirigindo como você me ensinou, comendo um mousse que não é o seu, sem saber fazer fogo pra churrasco, encarando o bichinho que você me deu, pegando e recolocando o livro que era seu, sem carona pós show, sem alguém jovem e mau humorado pra concordar comigo, ouvindo aquela música que você dizia ser sobre eu, tomando chimarrão, só... Vou continuar, é o que você me diria pra fazer.

Só não sou boa em fazer o que os outros pedem.