segunda-feira, 18 de abril de 2022

Poço

 Tenho caminhado ao redor do poço, por meses.

Este poço, que estive afogada, afundando na escuridão por tanto tempo.

O luto, é como a fuga de um poço.

Na primeira queda, eu quase não sai de lá, quase desisti de tentar.

Na segunda queda, eu gritei em fúria, gritei com o mundo, odiei tudo, por a vida ter me empurrado para o poço de novo.

Me afoguei, engasguei, chorei, fiquei sem ar, sem fôlego.

E lembrei que não poderia ficar ali pra sempre, lá no topo do poço, ainda haviam estrelas esperando por mim.

Então escalei.

Resbalei, escorreguei, me machuquei, quase desisti tantas vezes, mas continuei.

Sai do poço, mas não consigo seguir.

Quando olho pro poço, vejo todas as minhas memórias felizes e dolorosas.

Fico andando ao redor do poço.

Tento evitar olhar para o poço.

Consigo olhar cada vez menos.

Até que, tropeço.

E caio no poço, novamente.

O escuro, gelado e solitário fundo do poço.

Quero sair, mas não consigo.

Me encolho em lágrimas e desespero e conto.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, um, dois…

Conto, pra não lembrar, não lembrar pra não chorar.

Não choro, pois os olhos já doem e não aguentam mais.

Conto até dez.

Conto sem parar.

Pros sentimentos pararem.

Conto pra minha coragem voltar e eu sair daqui.

Conto, pois a vida fora do poço tem uma contagem acelerada e sem pausas.

Por que preciso sair daqui.