sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

- Entendo que é possível olhar nos olhos de alguém - ouvi-me dizendo - e de súbito saber que a vida será impossível sem eles. saber que a voz da pessoa pode fazer seu coração falhar, e que a companhia dessa pessoa é tudo que sua felicidade pode desejar, e que a ausência dela deixará sua alma solitária, desolada, e perdida.
Ela ficou quieta durante um tempo, apenas me olhando com uma expressão lige
iramente perplexa.
- Isso já lhe aconteceu, Lorde Derfel? - Perguntou enfim.
Hesitei. Sabia quais eram as palavras que minha alma queria dizer, e sabia as palavras que minha posição deveria me fazer dizer, mas então disse a mim mesmo que um guerreiro não florescia com a timidez, e deixei que a alma governasse minha língua.
- Nunca aconteceu até este momento, senhora - Foi necessário mais coragem para fazer essa declaração do que eu jamais necessitara para romper uma parede de escudos.


As Crônicas de Artur - O Rei do Inverno
(volume I - pg. 456\457)

As coisas tendem a mudar

Não é que eu esteja mais só, apenas não preciso mais tanto dos outros, pq encontro o que quero em mim.
Não é que eu me importe menos, apenas descobri que estar todos os dias com alguém não torna essa pessoa mais próxima, mais confiável, mais amiga, não a impede de partir, ou de ficar, não impede de mentir ou apoiar, apenas... sei que não é a proximidade que faz os sentimentos aumentarem ou diminuírem, então não penso mais ser necessário que eu esteja próximo de quem considero sempre.
Não é que eu tenha perdido a confiança nas pessoas, eu apenas cresci, e aprendi que pressa é inimiga, então não me importo o tempo que vai levar pra que eu possa conhecer e confiar em quem devo. Isso evita arrependimentos.
Não é que eu não tenha mais uma mente infantil, que faz bobagens e fala coisas sem nexo, apenas aprendi a me moldar, e saber quando devo usar meu lado infantil e irresponsável, que nunca morreu, e quando devo pensar e falar como alguém com minha idade ou modo de vida.
Não é que eu não chore ou sofra mais pelas pessoas, apenas diminui muito esse numero, diminui para a quantidade de pessoas que eu tenho certeza em meu coração que merecem minhas lagrimas, embora muitas vezes me pegue lacrimejando ao ler um livro.
Não é que eu não acredite mais em palavras, mas elas pra mim, não tem mais tanto valor quando soltas avulsas sem um acompanhamento de atitudes. Palavras são só palavras, da boca de todos que as pronunciam, exceto quando são pronunciadas vindas do coração para alguém que habita nele, com o tempo elas se apagam e em nossas memorias raramente tem grande valor, se não acompanhadas de grandes gestos.
Não é que eu saiba menos, mas acredito que sábios são aqueles que usam seu conhecimento, quando necessário sem ficar divagando.
Talvez eu esteja ficando velha... ou apenas tenha aprendido a fazer apenas as coisas que realmente são necessárias... ou ainda, posso não demonstrar mudanças, e guarda-las apenas em minha mente.

Mas umas coisa eu sei, não é o tempo apenas que muda as coisas, as pessoas, são os acontecimentos em nossas vidas, que nos fazem mudar, mudar pra se adaptar, mudar pra sobreviver, ou mudar pra ser melhor.
- Nimue? - falei de novo. Dessa vez seu nome ficou preso em minha garganta porque tive certeza de que ela devia estar morta, mas então vi suas costelas se mexerem. Ela respirou, mas afora isso permaneceu tão imóvel como se estivesse morta. pousei Hywelbane e estendi a mão para tocar seu ombro frio e branco. - Nimue?
Ela saltou na minha direção, sibilando, mostrando os dentes, um olho era uma órbit
a lívida e vermelha e o outro estava revirado de modo que aparecia apenas o branco. Tentou me morder, me gadanhou, soltou uma praga numa voz gemida e depois cuspiu em mim, e em seguida foi com as unhas longas na direção dos meus olhos.
- Nimue? - gritei. Ela estava cuspindo, babando, lutando e tentando morder meu rosto com dentes imundos. - Nimue!
Ela xingou de novo e pôs a mão direita na minha garganta. Tinha a força dos loucos, e seu grito cresceu em triunfo enquanto os dedos se fechavam na minha traqueia. Então, de repente, eu soube o que tinha de fazer. Peguei sua mão esquerda, ignorei a dor na garganta e pus minha cicatriz em cima da dela. Deixei-a ali; deixei-a ali; não me mexi.
E muito lentamente, a mão direita em minha garganta enfraqueceu. Lentamente seu olho bom se revirou, de modo que pude ver de novo a alma luminosa de meu amor. Ela me olhou, e depois começou a chorar.
- Nimue - falei, e ela passou o braço pelo meu pescoço e se agarrou a mim. Agora estava soltando enormes soluços que sacudiam as costelas finas enquanto eu a abraçava, acariciava e falava seu nome.


As Crônicas de Artur - O Rei do Inverno
(volume I - pg. 372\373)