terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Flores brancas

 Haviam flores brancas, na grama, ao seu redor na última foto que tirei de você. Ver que cresceram dezenas das mesmas flores brancas no local onde enterrei você, me faz pensar em tantas coisas.

Todos os dias que você esteve aqui, foram os melhores. Todos os dias desde que você se foi são suportaveis.

Sinto sua falta todos os dias.

Quando ele morreu, eu te abracei pra você me confortar. Quando você morreu eu te abracei, porque não queria deixar você.

Todos os dias, me abraço as memorias nossas pra ter forças pra terminar cada dia.

Sem você nada é fácil, nada esta normal, nada é bom o suficiente.

Ainda ouço você, ainda vejo você, ainda sinto você, ainda tem você em todos os cantos, todas as frestas, cada descuido você resurge, até mesmo respirar me lembra você.

Que saudades das suas pequenas orelhas, que saudades dos redondos das suas boxexas, das sobras do seu pescoço, que saudades de abraçar você e te chamar de amor.

Se você soubesse a falta que me faz, todos os dias.

sábado, 4 de dezembro de 2021

Cinco vidas

 Se eu tivesse cinco vidas

iria

ter cinco carros diferentes,

morar em cinco casas diferentes,

viver em cinco lugares diferentes

e amaria você cinco vezes

passearia com você nos cinco carros

moraria com você nas cinco casas

viveria com você em cinco lugares diferentes

e teria a chance de ser feliz de novo com você

cinco vezes

Tudo em dobro

 Ainda não me acostumei com os vazios

Da última vez, demorei metade de um ano

para sessar as lágrimas

para não ser a primeira coisa pensar quando acordava

para não lembrar ao dirigir

para não lembrar ao cozinhar

para não lembrar ao ouvir música

para não lembrar quando via um pudim

para não doer tanto

para aceitar

Dessa vez, foi mais fácil

não chorar o tempo todo

não lembrar o tempo todo

aceitar

Ainda evito a maior parte das músicas

ainda não canto a musica minha e dele, nem a música minha e dela

ainda não sei o que faço com os planos que fiz para de um futuro com ele e com ela

ainda me da vontade de chorar se ouço qualquer coisa sobre perder alguém

ainda ouço a risada dele e vejo os olhos dela

ainda sinto falta do corsa vermelho que aprendi a dirigir com ele, para passear com ela

só tirei o galo que ele me deu do lado da cama no dia que perdi ela

não quero ter coragem de usar novamente a coleira dela apenas quando perder outro alguém

Na virada desse ano, a única coisa que vou pedir, é pra não perder mais nenhum amor

ainda não consegui ir visitar o tumulo dele

ainda não consegui plantar uma flor em cima do tumulo dela

ainda não consegui apagar as fotos de vocês

ainda fico olhando os vídeos de vocês dois

Essa semana ouvi a gargalhada dele em outra pessoa

Ontem sonhei com ela, e acordei chorando

Estava difícil lidar com a perda dele, tem sido impossível lidar com a perda dela

Amar é tão difícil

Perder quem a gente ama é mais ainda

estou vagando sem esperança

estou vivendo cheia de vazios

Amei e fui amada, por três criaturas incríveis

Três

pois perdi um dos meus amores já na infância

Ontem, plantei uma árvore,

honestamente, não sei que tipo é, mas minha mãe me disse que tinha uma dessas no quintal do amor que perdi na infância

queria contar pra você, e ver a reação de vocês

Como pode, eu ter vivido com vocês pela mesma quantidade de anos

como podem vocês ter me deixado pelo mesmo motivo

como pode vocês dois terem nome que iniciam com Lu

como pode dois amores meus que se amavam se irem

Sinto falta de vocês

 

domingo, 14 de novembro de 2021

Sem nós

Sinto sua falta

Sinto falta da paz que você me dava

Sinto falta da sua presença constante

Sinto falta do seu olhar transbordando de sentimentos

Sinto falta da falha que tinha na sua cabeça

Sinto falta da textura do seu pelo

Sinto falta das sobras que você tinha no pescoço

Sinto falta do contorno rosado em volta de um dos seus olhos

Sinto falta de quando você colocava a orelha pra trás

Sinto falta da sua barriga pintada como um dalmata

Sinto falta dos seus olhos cor de mel

Sinto falta de passar uma hora tirando pulgas sua por não ter dinheiro pra comprar remédio

Sinto falta de dar banho em você toda semana, enquanto cantava tribalistas pra você

Sinto falta da maneira como você era organizada e deixava as cobertas que eu colocava na casinha, exatamente como eu deixei

Sinto falta do seu ronco barulhento

Sinto falta do seu constante silêncio

Sinto falta de chegar em casa e ver você no portão me esperando, esperando eu te chamar de amor e fazer um carinho em você

Sinto falta da sua aversão a lambidas

Sinto falta de abraçar você

Sinto falta de chorar com você

Sinto falta de dar um beijo na sua testa

Sinto falta falta de quando você sentava no meu colo

Sinto falta de cuidar de você, te enfaixar, passar remédio, te observar, me preocupar, surtar, sofrer

Sinto falta da raiva e frustração que passava pra te defender, pra te proteger

Sinto falta de você no banco de trás do carro, você amava andar de carro

Sinto falta de ser arrastada por você quando te levava em algum lugar de coleira

Sinto falta do seu raro latido

Sinto falta de assoviar e te ver chegar

Sinto falta de ver você no mesmo lugar de sempre deitada, encostada no muro tomando sol

Sinto falta de abrir a janela e te ver na casinha

Sinto falta do seu focinho quadrado

Sinto falta do seu nariz marrom sempre sujo na ponta

Sinto falta de dar comida pra você as 6:30 e as 18:30

Sinto falta de observar você dormir

Sinto falta de ter você viva aqui em casa

Sinto falta de ver você todos os dias

Sinto falta de ouvir você sempre

Sinto falta do imenso amor que tinhamos uma pela outra

Sinto falta de cada barulho seu, cada centimetro seu, cada suspiro seu

Sinto falta de tudo, absolutamente tudo, do bom, do ruim, do frustrante, do incrivel, da risadas, dos choros, de todos os sentimentos, momentos que vivi ao seu lado

Esse mês sem você, foi como viver incompleta

Sem você meu coração parece uma casa sem portas e janelas, vulnerável

Tudo o que você me ensinou a ter, a paciência, a esperança, o amor escapam pelos buracos que sua ausência deixou

Me sinto um robo, vivendo no automatico

Sem sentir, sem se importar, sem vontades, sem amor

Uma vez, falei que eu cantava tribalistas pra você no banho, pra termos nossa trilha sonora quando você se fosse

Mal sabia eu, que qualquer sopro, qualquer chuva, ou assoviar dos passáros me traria você. No fim, tudo o que ouço, tudo o que como, tudo o que toco, tem você

Passei tanto tempo, tantas coisas com você que você...


Você faz parte de mim


Te amo pra sempre meu amor


domingo, 17 de outubro de 2021

Sua ausência ecoa no silêncio

 Tenho dois potes de ração, e apenas um cachorro.

Tenho dois potes de água, e apenas um cão.

Tenho uma quantidade exagerada de cobertores pois você era friorenta, para apenas um cãozinho que sofre com o calor por ser muito peludo.

Tenho duas toalhas de banho, para um cachorro.

Tenho uma programação de tarefas para cuidar de dois, mas só tenho um.

Tenho tempo pra dois, mas só tenho um.

Tenho um vocabulário cheio de frases prontas no plural, e agora preciso muda-las pro singular.

Tenho todas as histórias sobre você e suas manias no presente, e agora fico corrigindo para deixa-las no passado.

Tenho um quintal pra dois cachorros, mas um deles não respira mais sob ele, o outro corre cheio de vida sobre ele.

Tenho apenas um cão pra abraçar, mesmo que o espaço seja pra dois.

Tenho tentado me acostumar com esse pouco que tenho agora.

Tenho tentado cuidar dele sem você.

Eu e ele temos tentado nos confortar.

Mas sua ausência ecoa no silêncio que se instaurou.

Sentimos sua falta.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Impotencia

 Esquecer.


Eu queria apenas esquecer.

Não pensar.

Não lembrar.

Fazer parar a dor.

Continua pulsando, a dor.

Lágrimas caem, quero que pare.

Latejante dor da impotencia.

Memórias que não queria ter, permanecem, se repetem, me atingem de novo e de novo.

Quero parar.

Não quero isso de novo.

Estou tão cansada.

O amor dói tanto.

Não quero mais sentir.

Meus olhos doem, transbordo sem ter intenção.

Odeio finais.

Odeio conclusões.

Não quero ser tão intensa.

Odeio sentir tanto.

Odeio, não sentir raiva como antes.

Odeio minha aceitação.

Odeio meu alivio.

Odeio meu conformismo.

Odeio minhas decisões.

Não quero lembrar.

Não quero pensar no que poderia ter sido diferente.

Não quero culpados.

Não quero mais ouvir você, sem você estar aqui.

Mas eu ouço.

Não quero te ver, sem você estar respirando.

Mas te vejo.

Não quero tomar decisões.

Mas tenho.

Não quero te amar tão intensamente.

Mas eu te amo tanto, que dói.

Quero gritar.

Gritar até perder a voz.

Gritar o quanto dói.

Mas fico em silêncio.

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Sem fé

 Hoje eu queria te ouvir dizendo que não é pra eu ficar desanimada, me pedindo pra levantar.

Só queria ter você aqui torcendo por mim, como no meu segundo teste do detran, é tão difícil ser otimista quando não parece ter alguém que acredita em você.

Quando até você mesmo não acredita em si. Talvez meu maior segredo seja esse, apesar de sempre tentar no fundo eu sei que não acredito em mim. To sempre fazendo tudo, tentando tudo, por não ter nada a perder.

Eu fico pensando como você carregava tudo em silêncio, resolvia tudo sozinho, superava tudo. Porque, caramba é tão difícil.

As vezes quando tô sentindo sua falta, eu coloco sua risada num replay na minha mente, obrigada por ter estado aqui, por ter me dado as nossas lembranças de presente.

Vou continuar tentando, mesmo sem fé, mentindo pra mim que acredito.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Ainda é cedo

 Demorei quatrocentros e vinte e oito dias para ouvir a música ainda é cedo do Legião Urbana, hoje eu finalmente consegui. Quero que você saiba que aos poucos eu estou conseguindo dar um passo de cada vez em frente. Já não estou mais encolhida, parada, com medo de cair. Estou vivendo pra ter muitas histórias pra te contar quando te reencontrar, e eu sei que vou, mesmo que só na nossa próxima vida.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Colorido

 

Em algum momento eu passei a associar cores a você.

É como se, tudo o que você representou pra mim fosse colorido, e então como uma tela de tv estragada, meu filme colorido ficou preto e branco.

Então eu simplesmente saio colorindo tudo, como se eu pudesse de alguma maneira mascarar meus sentimentos cinzas.

Eu respiro, pauso, tento não sentir, pra conseguir falar uma frase sobre você. É tão difícil, é como segurar um monte de areia com as mãos, por pouco tempo é possível até começar a cair por entre os dedos. Por isso falo pouco, pra eu ter pouco pra segurar, pra eu conseguir.

Essa semana foi aniversário da sua mãe, ela disse pra mim que está feliz, eu sei que é mentira, ela disse isso pois sabe que  sou um castelinho de areia se segurando pra não desmoronar o que sobrou.

Eu não consigo tirar o galo que você me deu daqui do lado da cama, eu já não consigo pensar em nada pra colocar no lugar, ele tá a tanto tempo ali que esqueci o que tinha antes.

Será que o colorido é por causa da caixinha de percevejos coloridos que você me deu? Ou por tudo o que você me deu e disse que era minha cara ser colorido?

E mesmo assim eu te desenhei na minha parede como um balão escuro. Porque como se eu fosse um fantoche me agarrando a poucos balões coloridos que me impedem de cair, a vida te colocou num lugar escuro onde não pode mais me segurar, nem colorir minha vida.

Espero que numa próxima vida, eu tenha a sorte de te reencontrar, e viver com você por dezenas e dezenas de anos.

Eu espero, só espero, já que não tem nada mais que eu possa fazer, apenas espero enquanto escrevo pra você, enquanto espalho cores que contam sobre você.


terça-feira, 24 de agosto de 2021

Portas

 Faz meses que não falo com você.


Eu penso em você com menos frequência.

E isso é o melhor pra mim. Tenho que pensar em mim já que você não fará isso por mim mais.

Eu vi sua mãe, ela viajou pra cá e foi ficar lá em casa num sábado. Você sempre me visitava em sábados, caramba que saudades de você.

Ela me contou a verdade, a verdade que sempre quis saber sobre sua morte, e eu demorei por medo. Medo de doer mais.

Eu senti raiva de você quando soube, pensei em mil maneiras que poderiam ter evitado que nos te perdessemos. Mas no fim, bem no fundo, eu sei que eu acredito em destino e esse era seu trágico destino, e conviver com isso é nossa dolorosa sina.

Estou em São Paulo, lembrei de você. Do dia que brigamos você pegou o último voo e apareceu lá no meu quarto.

É engraçado, portas me lembram você, olho pra elas achando que você poderia entrar por elas a qualquer momento.

Mas eu sei que você nunca mais vai voltar, e eu simplesmente sinto sua falta.

domingo, 6 de junho de 2021

7 de junho

Eu escolhi coldplay, para nossa triste trilha sonora. Eu tenho certeza que coldplay era uma das bandas que eu te obrigava a ouvir naquelas noites juntos, no momento que era minha vez de escolher a música. Seria estranho eu escolher uma trilha sonora que você nunca ouviu comigo. Era minha banda favorita naquela época. Apesar de eu achar lindas as músicas na época, eu não sentia esse turbilhão de emoções que sinto agora.
Tem uma música deles, chamada yellow, eu escolhi yellow como nossa cor. Quando as luzes brilham amarelas e eu lembro de você. Quando a lua está enorme e amarela eu queria tanto que você pudesse ver. Quando o sol aquece tudo num tom amarelo, e eu fico desejando que você pudesse sentir.
Estou escrevendo um livro para você, eu estou colocando tudo o que sinto lá, e a maior parte dele eu escrevi enquanto chorava lembrando de você. O nome dele é tsuru. Me perguntaram porque um nome tão simples, para uma história tão intensa, mas para eu, cada tsuru é como um universo. Eu estava pendurando tsurus no teto do meu quarto a primeira vez que te vi. A maioria dos nossos risos foram sob tsurus vários. Desenhei pássaros no seu braço uma vez. Você me viu no céu, caindo como um pássaro sem asas. Você me ensinou a dirigir, e é o mais perto de voar que chego todos os dias. Se não fossem os tsurus não haveria nós.
Eu queria ir no seu tumulo hoje, só pra você saber que eu não te esqueci, que eu sinto sua falta, e pra chorar por ter perdido o insubstituível. Mas a pandemia continua, meu horário de trabalho não vai tornar isso possível. Queria fazer isso, porque eu não posso fazer mais nada por você.
Queria você aqui, rindo. Que saudades do seu riso.
Queria me sentir segura como quando eu tinha você.
Queria poder pedir ajuda sem ser julgada.
Queria que fizessem alguma coisa por mim  apenas por gostar.
Queria panqueca fria me esperando na mesa no meio da semana.
Queria ganhar alguma coisa estranha, simplesmente por lembrarem de mim.
Queria companhia, sua companhia.
Mas não vai acontecer, e de alguma forma minha mente aceitou isso.
Em algum momento, parei de acordar pensando em você, ouvindo você, chorando por você.
 tudo bem, vai ficar tudo bem.
Já perdi você, já perdi minha fé, já perdi meu medo, já perdi dois amores...
Parece que a perca é gradativa.

Obrigado, por ter sido minha luz.
Parece que hoje faz um ano, que aprendi a viver no escuro.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

O que você diria?

Está frio por aqui, bastante frio, eu lembro da sua blusa vermelha, sinto falta de vê-la com você nela.
Outro dia desses ainda estava escuro quando sai trabalhar e tudo estava coberto por uma neblina intensa, enquanto dirigia e só via o branco, pensei em você, nunca te perguntei se você gostava da neblina, quando cheguei no centro da minha cidade os postes de luz estavam tão bonitos, pareciam estrelas amarelas brilhantes com uma pequena cauda, que era a extensão da luz pela curva do poste, queria tanto que você pudesse ver. Está guardada na minha mente essa imagem junto com muitas outras, como a luz do céu noturno azul um pouco mais clara que o restante do céu a noite, naquela reta de arvores que são representadas por uma cor preta que acaba sendo interrompida por uma ou outra luz de algum veiculo que passa rapidamente pela Br aqui perto de casa. Estou guardado tudo, por você.

Sinto sua falta.

Domingo foi dia das mães, me desculpe, não sou você, não posso cumprir seu papel e dizer algo para sua mãe que ela merecia ouvir. Eu queria, mas falar sobre você ainda me faz chorar. Não sei como desejar feliz dia das mães a uma mãe que perdeu um filho, não consigo tentar forçar a ideia de desejar felicidade a ela nesse momento.

Sinto sua falta.

Quando olho pro banco do passageiro do novo carro, não te vejo ali. Suas mãos não estão sobre o volante, não penso na maneira como você trocava a marcha, a chave que atualmente eu giro na ignição não é a mesma que você tocou. Mas eu ainda sei, eu ainda lembro, que eu só dirijo graças a você.

Sinto sua falta.

Acabei de assistir um dorama, um garoto quase com sua idade tinha uma doença terminal, se despediu de todos e morreu. Dói tanto, associar ele a você. Mesmo que você estivesse preparado pra morrer, não acredito que você quisesse morrer. Você não queria deixar sua mãe. Você queria viajar. Você queria comprar uma casa. Você queria viver um amor. Você iria querer se despedir, eu sei que iria. O que será que você diria? O que você teria me dito? Eu queria ter dito tanta coisa pra você. Se você de alguma forma se perguntar se está vivo aqui, pra alguém, saiba que seu coração nunca parou de pulsar para mim.

Sinto sua falta.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Corsa 98

Quando eu entrava e fechava a porta podia visualizar você no banco do passageiro, de perfil sentado com postura, bochechas coradas constrastadas com seu tom moreno, cabelo penteado, celular na mão, gesticulando com os dedos para que eu ligasse o carro, ouço você me chamar  pelo meu apelido.

Suas unhas sempre perfeitamente feitas giravam a chave na ignição, o carro ligava, você direcionava a mão pro rádio, colocava em alguma rádio que eu não tinha interesse, pra termos motivo pra discordar, ou simplesmente deixava na rádio que estava e criticava meu gosto musical com uma careta. Sua roupa padrão moço comportado, totalmente vaidoso com seu all star que eu convenci que gostar, sempre limpo, exceto por nossos apelidos escritos nele. Eu ao seu lado com minhas unhas mal feitas, esmalte descascando, a primeira roupa que vi e vesti, cabelo talvez sem pentear naquele dia, tênis sujo e com cadarço mal passado, rindo das suas críticas e mudando de música ou alterando o volume pra te irritar.

Estar com você no carro, era sempre tranquilo e seguro, você dirigia e eu tagarelava tranquilamente sem ajudar em nada no trajeto. O que me lembra o dia do meu salto de bungee jump, passamos a entrada, quase fomos parar no primeiro pedágio rumo ao litoral, fizemos o retorno e acertamos a entrada com dúvidas e com ajuda. Ao invés de se estressarmos, a gente ria, mesmo que eu soubesse que você estava tenso por ter errado o caminho. Estava tudo bem, a gente estava juntos, a gente sempre dava um jeito.

Já quando eu dirigia, e eu fizesse algo errado, você me ajudaria, eu sabia disso afinal foi você que me deu aulas de direção após eu reprovar na minha primeira tentativa. Posso ver agora você com a mão sobre o freio de mão, preparado pro caso de eu  cometer algum erro. Você estava mais nervoso que eu no dia do meu segundo teste, e era óbvio que eu passaria, tive o melhor professor. Você era o melhor.

Meu moletom dos beatles está manchado, eu ainda uso ele, muito. Eu sempre usava ele nas madrugadas de sábado pra domingo, as 3 horas quando você parava na  frente do bar de shows que eu frequentava, eu entrava no carro fedendo, suada, rindo, cansada, e comentando sobre o que tinha acontecido com minha amiga que entrava pela porta de trás. Você nunca estava de mau humor, por acordar as 2:30 da madrugada e pegar o corsa 98 só pra me buscar de um show que você nunca foi, não tinha interesse em ir, e não tinha obrição nenhuma de ir. Eu passava mal pelo caminho por causa da minha claustrofobia as vezes, você perguntava se estava bom o vidro aberto naquela altura, se queria parar, eu acabava fazendo você parar pra eu comprar cachorro quente. Você tinha que deixar minha amiga que você nem gostava em casa antes de chegarmos em casa.

A garagem do corsa 98 ficava entre sua casa e o portão dos fundos da minha, a gente se despedia e cada um ia dormir, e eu não lembro se eu te agradecia, me desculpe se eu não te agradecia, você era o máximo, e eu nunca mais vou conhecer alguém como você.

Lembra do dia que buscamos a Lumi, acho que depois de eu e meus pais, você foi a pessoa que mais amou ela na vida, o jeito que ela te olhava, o animo dela ao te ver, a confiança, ela sabia quanto amor você tinha por ela, ela anda meio mal, na realidade, muito mal. Cheguei a pensar que perderia ela também no ano passado. Você que era tão chato, só dava risada quando ela comia o carregador do seu nootebook ou te mordia os tenis.

Esta na minha memória a panqueca em cima da mesa, na copa sob as luzes apagadas, após um dia exaustivo, que você deixava lá, porque fez e quis deixar pra mim. É uma cena que não se repetiu mais depois daqueles anos, e dúvido que vá.

Tem aquele dia você chegou com um galo estranho, e disse que comprou porque eu gosto de coisas estranhas. Ele esta aqui, do lado da cabeceira da cama, logo vai fazer um ano, e ele me deixa triste. É a recordação constante de que um dia tive uma pessoa incomparável, e ela se foi, e isso não vai acontecer comigo novamente. Porque pessoas raras não se encontram assim abrindo a janela, como eu encontrei você, naquele dia, há oito anos atrás.

Quando me mudei pra perto de você, meu pai disse que meu vizinho era bonito, e não era pra eu perturbar você. Depois que te conheci e descobri que a beleza era a qualidade mais insignificante em você, percebi que nossa fortaleza não precisa de mais do que estrema confiança e cuidado. Proteger quem a gente ama não tem que ser um fardo, você me ensinou isso.

O simples, o honesto faz tanta falta. Lembro dos seus olhos azuis tristes ou um brilhante feliz, sorrindo com seu único dente semi torto, deve ser o que a  maioria das pessoas lembra de você.

Você tão bonito, tão quebrado, tão inseguro, tão confuso, tão sozinho, tão carente, tão inocente, tão maduro, tão imperfeito, tão humano.

Lembro quando tiravam sarro de você, ou faziam zoação de você, eu odiava aquilo, eu defendi você, não permiti que falassem de você na minha frente, você era só um menino tolo, perdido que não sabia fazer fogo pra um churrasco, assim como eu, mas a gente superou isso né? Após você me fazer correr umas sete vezes com um pedaço de papelão pegando fogo do fogão da cozinha até nossa churrasqueira improvisada de grade de geladeira, enquanto você ria de mim, acendemos o fogo, comemos metade do churrasco sozinhos enquanto assavamos desastradamente e contavamos dos nossos últimos desamores.

Você nunca foi perfeito, eu nunca fui perfeita, agente nunca foi igual.

Lembro o dia que você quase não conseguiu me buscar no terminal, o corsa 98 estava sem bateria, o meu pai fez ele pegar, quando entrei no carro o rádio estava ligado e você ria como um criminoso, por ter ligado o rádio pra me esperar com o carro desligado, sem saber se teria bateria pra ligar depois, desobedecendo as recomendações de não ligar o rádio. O carro ligou, rimos, e você se deu bem em uma das únicas vezes que você quebrou as regras, você era tediosamente correto, e isso nunca me incomodou. Assim como todo meu caos não te incomodava.

Você teve que estacionar o corsa 98 na sua casa numa das minhas últimas visitas, você me fez prometer trocar a embreagem, que estava péssima. Também entrei no seu carro novo naquele último dia, você me mostrou orgulhoso, e me prometeu que eu daria uma volta na próxima vez.

É tão comum, prometer coisas pra quem você acredita que tem o resto da vida. Eu não fazia ideia, que o resto da sua vida seria tão curta.

Nós não sabiamos que nossas promessas não se cumpririam.

Eu gravei uma nova playlist cheia de músicas velhas naquele dia antes do seu último dia, era sábado, coloquei o pendrive  no rádio do corsa 98 e fui cantando, até as lojas. Não era o rádio que você e eu compartilhavamos, esse era outro, mas era o mesmo corsa. Na voltando pra casa com as mãos no volante, o mesmo volante que você tocou, com a mesma chave na ignição que você usou, olhei para sua rua, pensei em ir te ver, e como inumeras decisões erradas que tomei na vida, resolvi que não iria naquele dia.

No seu funeral eu estava sozinha, eu chorei desesperada no volante que compartilhamos, olhando pro painel que você observou tantas vezes, tomei uma coca sem gosto por você, vi você, ouvi você, sem parar, repetidas vezes naquele carro.

Por meses, e meses eu chorei agarrada aquele volante gelado. Pelo mesmo tempo, em que falei com você enquanto dirigia. Fiz uma playlist pra você, com todas as musicas tristes que eu ouvia enquanto dirigia, pensava e falava com você.

Parei, respirei, me afoguei, emergi, decai e me reergui, num silêncio barulhento e doloroso dentro daquele carro.

Como se estar onde você esteve, fosse me impedir de esquecer qualquer detalhe seu.

Tem uma farmácia numa das ruas do meu percurso de volta pra casa, tem um senhor que cuida do estacionamento lá, ele sabe muito mais de como eu me senti todos os dias, durante os primeiros meses, do que qualquer pessoa, ele sempre estava lá me olhando chorar naquele sinaleiro segurando o volante com força, com a respiração difícil com você nos pensamentos.

Eu cumpri minha promessa, eu troquei a embreagem, você nunca vai poder cumprir a sua, e nunca sabera que eu cumpri a minha.

O corsa 98 foi vendido nessa segunda-feira.

Eu passei uma semana difícil desde que eu cai na realidade de que eu teria que vender ele, foi muito rui dar adeus a algo que me lembrava tanto você.

Desde que você se foi, eu nunca mais consegui ouvir aquela música enquanto dirigia.

E no fim, o corsa 98 se foi, assim como você.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Silêncio

Não estamos ficando velhos, você se foi tão jovem.
Me desculpe, por falar com mortos.
Mas teu silêncio me conforta bem mais que qualquer palavra que eu ainda possa ouvir por aqui.
Eu nunca vou te dizer adeus.
Pois não tive tempo suficiente com você pra aceitar isso.
E por isso, eu sinto tanto sua falta.
Desculpa se eu nunca disse que te amava em voz alta, eu não me lembro se eu disse.
Se eu disse, desculpa por não ter deixado claro que era de verdade.
Desculpa, por não esclarecer o tamanho da importancia que você tem na minha vida.
Te odeio por deixar esse imenso vazio aqui dentro de mim.
Te amo por ter sido tão imenso pra mim.
Te odeio por estar em todo lugar.
Amo minhas memorias com você em tudo.
Me odeio por ter escondido toda a dor que você tem me causado, do mundo.
Aceito que dificilmente dores são compreendidas.
Odeio ter que vender o carro que passei tantos ótimos momentos com você.
Odeio aquele carro por ter me feito chorar tanto quando você se foi.
Ainda te ouço.
Ainda bem.
Desculpe, por fazer tudo o que você não ia querer que eu fizesse em relação a sua ida.
Mas amar dói.
Eu sempre escolho as pessoas certas pra amar, e mesmo assim elas se vão.
Como você.
Você realmente sabe ser unico.
Me fez passar por coisas que não imaginei que aconteceriam tão cedo.
Todo o desespero, a dor e o ódio que senti.
Esse silêncio, que nunca se vai.
Esse silêncio que ecoa na minha vida.
Essa ausência de sons.
É como aquele dia, no bungee jump.
Você lembra de mim caindo?
Aquela sensação, de cair.
Cair,
E continuar a cair,
No silêncio.
Com a mente vazia.
Sem prever o que sentiria em seguida, se eu sentiria.
Um silêncio eterno.
Como agora.
Continuo caindo nesse vazio silencioso.
Todo silêncio me faz pensar em você.
E então eu dirijo em silêncio, com você na mente.
Eu não quero mais ouvir nada.
Desde que senti que isso me faz estar perto de você.
Eu me calo e espero...
Nossos silêncios.

domingo, 31 de janeiro de 2021

Estranha

Já parou pra pensar no peso das palavras nas músicas? Saudades, se foi, onde está, sinto falto, voltar, tempo... São palavras que quebram quem já está partido.


Eu passei meses aos pedaços, sem ter você pra me reconstruir.


Ainda dói, ouvi-las.


Ainda me lembro de você todos os dias.


Mas agora eu já consigo caminhar para frente, um passo de cada vez.


Dói não ter você aqui, dói mas as lágrimas já não vem com frequencia.


Dói ter me acostumado com sua ausencia.


Dói, mas você não vai voltar.


Dói, aceitar que enquanto você se foi, eu continuo aqui.


Dói eu admitir que estou seguindo adiante, e tentando ser feliz sem você aqui.


O tempo realmente ajuda.


Não cura nada, mas nos faz se acostumar.


Com ausência,


A saudade,


E a solidão.


Eu ainda continuo falando com você enquanto dirijo, talvez eu seja estupida.


Mas não consigo admitir sua não existencia.


Eu vi o céu mais bonito desse ano, nesta semana e disse pra você que você amaria ver aquilo. Eu limpei o carro ontem e comentei que você ficaria orgulhoso de eu finalmente ter feito isso, eu ouvi sua voz me dizendo "finalmente". Eu te contei que vou ter que vender o carro, o carro que tem muitas memórias nossas, e ninguém entende o motivo do meu apego. Deixar o carro ir, é como desapegar de algo nosso, e eu continuo me agarrando aos pedaços teus que você deixou por aqui.


É o motivo desse galo estar sentado do lado da minha cama, as vezes eu falo com ele, como se fosse você. Invento desculpas para meu sobrinho não pegar ele pra brincar, com medo dele estragar uma das poucas coisas que você me deixou.


Outro dia desses vi aquele cantor num programa e ele cantou minha música, aquela música, que eu pensei em como se parecia comigo e sem eu dizer nada, você me disse que era minha música, a música que eu pulo pra não ouvir mais, a música que eu ignoro pra não chorar.


Falei com sua mãe novamente esses tempos. Me desculpa por ter deixado ela sozinha, não ter estado presente. Você me conhece, eu fujo sempre que posso. Eu morro de medo de sofrer. E falar com ela me faria sofrer mais do que eu já estava. Ela está pessima. E é sua culpa.

Como você pode morrer?


Eu sinto tanto sua falta.


Continuo estranha, como você costumava me achar, só que agora pior, eu falo com mortos e objetos.