Quando eu entrava e fechava a porta podia visualizar você no banco do passageiro, de perfil sentado com postura, bochechas coradas constrastadas com seu tom moreno, cabelo penteado, celular na mão, gesticulando com os dedos para que eu ligasse o carro, ouço você me chamar pelo meu apelido.
Suas unhas sempre perfeitamente feitas giravam a chave na ignição, o carro ligava, você direcionava a mão pro rádio, colocava em alguma rádio que eu não tinha interesse, pra termos motivo pra discordar, ou simplesmente deixava na rádio que estava e criticava meu gosto musical com uma careta. Sua roupa padrão moço comportado, totalmente vaidoso com seu all star que eu convenci que gostar, sempre limpo, exceto por nossos apelidos escritos nele. Eu ao seu lado com minhas unhas mal feitas, esmalte descascando, a primeira roupa que vi e vesti, cabelo talvez sem pentear naquele dia, tênis sujo e com cadarço mal passado, rindo das suas críticas e mudando de música ou alterando o volume pra te irritar.
Estar com você no carro, era sempre tranquilo e seguro, você dirigia e eu tagarelava tranquilamente sem ajudar em nada no trajeto. O que me lembra o dia do meu salto de bungee jump, passamos a entrada, quase fomos parar no primeiro pedágio rumo ao litoral, fizemos o retorno e acertamos a entrada com dúvidas e com ajuda. Ao invés de se estressarmos, a gente ria, mesmo que eu soubesse que você estava tenso por ter errado o caminho. Estava tudo bem, a gente estava juntos, a gente sempre dava um jeito.
Já quando eu dirigia, e eu fizesse algo errado, você me ajudaria, eu sabia disso afinal foi você que me deu aulas de direção após eu reprovar na minha primeira tentativa. Posso ver agora você com a mão sobre o freio de mão, preparado pro caso de eu cometer algum erro. Você estava mais nervoso que eu no dia do meu segundo teste, e era óbvio que eu passaria, tive o melhor professor. Você era o melhor.
Meu moletom dos beatles está manchado, eu ainda uso ele, muito. Eu sempre usava ele nas madrugadas de sábado pra domingo, as 3 horas quando você parava na frente do bar de shows que eu frequentava, eu entrava no carro fedendo, suada, rindo, cansada, e comentando sobre o que tinha acontecido com minha amiga que entrava pela porta de trás. Você nunca estava de mau humor, por acordar as 2:30 da madrugada e pegar o corsa 98 só pra me buscar de um show que você nunca foi, não tinha interesse em ir, e não tinha obrição nenhuma de ir. Eu passava mal pelo caminho por causa da minha claustrofobia as vezes, você perguntava se estava bom o vidro aberto naquela altura, se queria parar, eu acabava fazendo você parar pra eu comprar cachorro quente. Você tinha que deixar minha amiga que você nem gostava em casa antes de chegarmos em casa.
A garagem do corsa 98 ficava entre sua casa e o portão dos fundos da minha, a gente se despedia e cada um ia dormir, e eu não lembro se eu te agradecia, me desculpe se eu não te agradecia, você era o máximo, e eu nunca mais vou conhecer alguém como você.
Lembra do dia que buscamos a Lumi, acho que depois de eu e meus pais, você foi a pessoa que mais amou ela na vida, o jeito que ela te olhava, o animo dela ao te ver, a confiança, ela sabia quanto amor você tinha por ela, ela anda meio mal, na realidade, muito mal. Cheguei a pensar que perderia ela também no ano passado. Você que era tão chato, só dava risada quando ela comia o carregador do seu nootebook ou te mordia os tenis.
Esta na minha memória a panqueca em cima da mesa, na copa sob as luzes apagadas, após um dia exaustivo, que você deixava lá, porque fez e quis deixar pra mim. É uma cena que não se repetiu mais depois daqueles anos, e dúvido que vá.
Tem aquele dia você chegou com um galo estranho, e disse que comprou porque eu gosto de coisas estranhas. Ele esta aqui, do lado da cabeceira da cama, logo vai fazer um ano, e ele me deixa triste. É a recordação constante de que um dia tive uma pessoa incomparável, e ela se foi, e isso não vai acontecer comigo novamente. Porque pessoas raras não se encontram assim abrindo a janela, como eu encontrei você, naquele dia, há oito anos atrás.
Quando me mudei pra perto de você, meu pai disse que meu vizinho era bonito, e não era pra eu perturbar você. Depois que te conheci e descobri que a beleza era a qualidade mais insignificante em você, percebi que nossa fortaleza não precisa de mais do que estrema confiança e cuidado. Proteger quem a gente ama não tem que ser um fardo, você me ensinou isso.
O simples, o honesto faz tanta falta. Lembro dos seus olhos azuis tristes ou um brilhante feliz, sorrindo com seu único dente semi torto, deve ser o que a maioria das pessoas lembra de você.
Você tão bonito, tão quebrado, tão inseguro, tão confuso, tão sozinho, tão carente, tão inocente, tão maduro, tão imperfeito, tão humano.
Lembro quando tiravam sarro de você, ou faziam zoação de você, eu odiava aquilo, eu defendi você, não permiti que falassem de você na minha frente, você era só um menino tolo, perdido que não sabia fazer fogo pra um churrasco, assim como eu, mas a gente superou isso né? Após você me fazer correr umas sete vezes com um pedaço de papelão pegando fogo do fogão da cozinha até nossa churrasqueira improvisada de grade de geladeira, enquanto você ria de mim, acendemos o fogo, comemos metade do churrasco sozinhos enquanto assavamos desastradamente e contavamos dos nossos últimos desamores.
Você nunca foi perfeito, eu nunca fui perfeita, agente nunca foi igual.
Lembro o dia que você quase não conseguiu me buscar no terminal, o corsa 98 estava sem bateria, o meu pai fez ele pegar, quando entrei no carro o rádio estava ligado e você ria como um criminoso, por ter ligado o rádio pra me esperar com o carro desligado, sem saber se teria bateria pra ligar depois, desobedecendo as recomendações de não ligar o rádio. O carro ligou, rimos, e você se deu bem em uma das únicas vezes que você quebrou as regras, você era tediosamente correto, e isso nunca me incomodou. Assim como todo meu caos não te incomodava.
Você teve que estacionar o corsa 98 na sua casa numa das minhas últimas visitas, você me fez prometer trocar a embreagem, que estava péssima. Também entrei no seu carro novo naquele último dia, você me mostrou orgulhoso, e me prometeu que eu daria uma volta na próxima vez.
É tão comum, prometer coisas pra quem você acredita que tem o resto da vida. Eu não fazia ideia, que o resto da sua vida seria tão curta.
Nós não sabiamos que nossas promessas não se cumpririam.
Eu gravei uma nova playlist cheia de músicas velhas naquele dia antes do seu último dia, era sábado, coloquei o pendrive no rádio do corsa 98 e fui cantando, até as lojas. Não era o rádio que você e eu compartilhavamos, esse era outro, mas era o mesmo corsa. Na voltando pra casa com as mãos no volante, o mesmo volante que você tocou, com a mesma chave na ignição que você usou, olhei para sua rua, pensei em ir te ver, e como inumeras decisões erradas que tomei na vida, resolvi que não iria naquele dia.
No seu funeral eu estava sozinha, eu chorei desesperada no volante que compartilhamos, olhando pro painel que você observou tantas vezes, tomei uma coca sem gosto por você, vi você, ouvi você, sem parar, repetidas vezes naquele carro.
Por meses, e meses eu chorei agarrada aquele volante gelado. Pelo mesmo tempo, em que falei com você enquanto dirigia. Fiz uma playlist pra você, com todas as musicas tristes que eu ouvia enquanto dirigia, pensava e falava com você.
Parei, respirei, me afoguei, emergi, decai e me reergui, num silêncio barulhento e doloroso dentro daquele carro.
Como se estar onde você esteve, fosse me impedir de esquecer qualquer detalhe seu.
Tem uma farmácia numa das ruas do meu percurso de volta pra casa, tem um senhor que cuida do estacionamento lá, ele sabe muito mais de como eu me senti todos os dias, durante os primeiros meses, do que qualquer pessoa, ele sempre estava lá me olhando chorar naquele sinaleiro segurando o volante com força, com a respiração difícil com você nos pensamentos.
Eu cumpri minha promessa, eu troquei a embreagem, você nunca vai poder cumprir a sua, e nunca sabera que eu cumpri a minha.
O corsa 98 foi vendido nessa segunda-feira.
Eu passei uma semana difícil desde que eu cai na realidade de que eu teria que vender ele, foi muito rui dar adeus a algo que me lembrava tanto você.
Desde que você se foi, eu nunca mais consegui ouvir aquela música enquanto dirigia.
E no fim, o corsa 98 se foi, assim como você.
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