E se não fosse sua ligação. Se fosse não minha farsa, meu termino recente e a mágoa pulsante. Se não fosse a troca obrigatória das fixas, bem naqueles caixas, em frente aqueles bancos, e seu cabelo, e, sua bermuda. Se não fosse você aparecendo acompanhado. E eu indo embora acompanhada. E o mueller. E você marcando para o dia seguinte, naquele outro local, em outro horário, depois daquele mesmo evento. Se eu não confirmasse, e não fosse. E se eu lembrasse o que pensei no dia anterior. E se não fosse meu atraso, a porta vai e vem, em frente aquele balcão, e você me parando e me puxando. E se eu não disse-se: depois. Se eu não te abandonasse naquela porta. Se você não me visse. Se eu não lembrasse. Se eu não voltasse. Se você não tentasse. Se você não ficasse ao meu lado, se não fosse seu celular em minhas mãos, e a rodinha de mosh. E você falando, e eu fingindo conseguir ouvir. Se eu não demonstrasse pouco interesse, na ligação, na frente do caixa, na entrada entre a porta vai e vem e no balcão, na pista e enquanto você tentava. Se você não se esforçasse para eu lhe ver. E se eu não te visse. Se não fosse os curtos diálogos. E seu amigo com o braço sobre meu ombro. E o seu ciumes. E aquela sua atitude. E se você não tivesse que ir embora. E se não fosse a tentativa de beijo, e a rejeição, e você frustrado. E se você não fosse persistente. Se não fosse o aniversário do meu irmão, o meu atraso, o mamonas assassinas, o último ônibus. Se não fosse a outra ligação, e o seu pedido, e o meu sim. E as mensagens, a aula chata no auditório, o tédio, e aquela quarta-feira. Se não fosse o mueller, a renner e aquele corredor. Se você não me surpreendesse, e não me puxasse, e não me beijasse. Se você não me segurasse. Se você não sorri-se. Se você não me olhasse nos olhos. E se não fossem os passeios bobos. Se não fosse a noite surgindo, e os portões fechados, e você indo, e eu rindo. E as pessoas. E os ingressos. E o seu primeiro show. E a sua insegurança. E os seus amigos. E aquelas minhas amigas. E se não fosse o que você me disse, na portaria. Se não repetissem a palavra que você disse. Se você não tivesse posto aquela pulseira no meu braço. Se não fosse nosso tempo. E você brigando comigo. E se não fosse o cachorro quente. E meu atraso. E o álcool. Se não fosse toda a confusão. Se não fosse você lá no palco, me olhando. Se você não me olhasse o tempo todo. Se não fosse você me procurando no fim do show. Se você não me encontrasse, e aquela sua rodinha de amigos, a garrafa d'agua, o balcão, as desculpas repetidas, e o corredor. Se você não me pedisse para te acompanhar. Se eu não visse ela. Se eu não conhecesse sua mãe. Se não fosse a confusão no estacionamento. Se não fosse as ligações da sua mãe. Se não fosse seus sorrisos. Se não fosse seus planos. E se não fosse aquele último dia. As promessas. As mentiras. As risadas. As lágrimas. A falta de caráter. A traição. Se não fosse meu coração partido. Se não fosse a última ligação. Aquelas palavras. E as ofensas. Se não fossem as lembranças. E os detalhes. E o meu anel. E as mensagens. E a tartaruga. Se não fossem os outros. As diferenças. Se não fosse você aparecendo de novo, e de novo. No meu trabalho. Naquela rua. Naquele show. Se nós não fingíssemos que não nos conhecemos, que não nos beijamos, que não andamos de mãos dadas, que não nos apaixonamos, que não rimos juntos, que nunca fomos nós. No hangar, no mueller, no passeio público, nas ruas, para as pessoas. Se não nos ignorássemos. Se eu não percebesse o jeito que me olhava. Se eu não estivesse sorrindo, e se você soubesse que eu estava fingindo. Se eu não fingisse que não percebi. Se não fosse seu moletom cinza e aquela sua cara. Se você não sumisse. Se não fosse sua mudança. A distância. Se não fossem os anos. Se não fosse meu depoimento. Se não fosse novamente aquele dia, com você. Se não fosse seu nome e o meu, na mesma página. E o interrogatório, e o meu depoimento, e eu te chamando de ex. Se não fosse você me assombrando. Se eu não tivesse que relembrar. Se eu tivesse como apagar. Se não fosse a frustração. Se não fossem as dúvidas. Se não fossem as possibilidades. Se não fossem os erros. Os términos. A volta. As brigas. Os abraços. O seu perfume naquele elevador, daquele prédio. Se não fosse tudo errado. Se não fosse ela. Se não fosse o celular emprestado. Se não fosse a confiança. E aquele dia das crianças, daquele ano. E sua honestidade estúpida. Se não fosse o cpm22 e o blink182. Se não fosse o silêncio. E a confusão. Se não fosse tudo isso. Nunca teria havido nós.