Querido Bastião,
Foi na década passada que todas aquelas coisas aconteceram, aliás, como vai você? Eu sei, você não pode mais me responder.
Será que você teria um riso pra me dar, por cada lágrima que derramei? Aposto que sim, e seria um montão, assim como a quantidade de açucar que você colocava nas coisas.
Foi em um desses janeiros que te escrevi a última vez não é? Acho que sim, num desses janeiros. Por que será que o verão sempre machuca mais. Sei lá, parece injusto sabe? Como o sol insiste em brilhar e ofuscar até nos dias mais tristes, como ele prevalece sobre os minutos de chuva tão rápido. Logo a chuva que reflete a alma da gente, chorando. Eu nunca fui dias ensolarados, eu sei, eu sei. Na nossa época nós éramos dias longos de verão, reluzindo com sorrisos facéis. Hoje em dia, tá tão difícil sorrir, tá tão difícil ser eu, que até dói respirar, e parece que cada riso demorado é insuficiente. É tão difícil não ser nós. É difícil seguir sem você me guiando, me carregando na garupa da sua bicicleta.
Estive me perguntando, se por acaso, você foi como eu na nossa época, você escondeu sua infelicidade e sorriu para mim? Pois quando eu estou com ele, parece que dói um pouco menos, o ar fica menos rarefeito e é até possível respirar sem se intoxicar. Ele purifica o ar com a gargalhada inocente dele. É meu trailer favorito, minha trilha sonora do momento, o único inevitavel que sinto falta mesmo com todo o cansaço e a irritação diaria. Eu fui seu sol nas tempestades? Eu te fiz rir quando você estava estressado e fadigado da vida? Como ele tem feito comigo? Espero realmente que sim.
Passei tantos anos da minha vida pensando que eu nunca ia conseguir te compensar por todos os dias felizes da minha infância com você, imaginei como você agiria sabendo que não me tornei lá grande coisa, talvez até uma decepção e um encosto, como tenho me sentido. Mas eu notei, nesse momento, em alguns momentos do meu ontem que me vem a mente... Minha risada também foi sua trilha sonora do verão né? Que bom que no fim, foram suas últimas memórias comigo, assim você não é obrigado a ver como meu silêncio é assustador, e como me custa sorrir.
Mas, qual era mesmo o assunto que vim aqui te contar... Ah é mesmo! Você sabia que existe música no celular agora? Os celulares são tão incríveis, como telefones moveis sabe? tem tudo neles, você não precisaria do seu rádio fm, ou am, da época, nem de um papel e uma caneta. Apenas o celular bastaria, pra ouvir uma trilha sonora triste, que te faz pensar em seus fracassos, arrependimentos e desamores, e nele mesmo você escreveria sobre eles. Como fiz agora. E a notícia final dessa carta é essa: sem novidades nessa nova década também, o amor continua não existindo mais.
Álias, hoje choveu forte, me molhei bastante. Tem sido um verão chuvoso, até mesmo os dias tem chorado. Você gostava de qual estação? Eu nunca tive a chance de perguntar... Eu amo o inverno, frio e sem cor, parece meu reflexo. Caso você tenha curiosidade em saber como me tornei.
Com amor, sua afilhada.