domingo, 26 de novembro de 2023

Pra deixar pra lá

 Ontem sonhei com você e não foi a primeira vez. Mas dessa vez, não entendi o motivo por isso resolvi escrever sobre você, pra deixar pra lá. Minha mente tem dificuldade de esquecer coisas não finalizadas e mais ainda as nem iniciadas.

 Foi no pior ano da minha vida que conheci vocês, entrar naquele emprego, ter feito amizade com os meninos e passar o intervalo do almoço todos os dias de semana com vocês, conversando, rindo, caminhando e comendo doces me salvou. Vocês não faziam ideia que eu chorava todos os dias no caminho pro trabalho, me faziam passar a tarde toda rindo e no fim do trabalho, no caminho para casa eu chorava o trajeto todo de novo. Fiz isso por uns seis meses, todos os dias, sem intervalos. Apareci de óculos depois de alguns meses, fui proibida de usar lentes, pois meus olhos estavam desidratados.

 Existiram situações que nunca apaguei, que aconteceram naquele ano. E têm quatro de vocês que me marcaram de maneiras diferentes, por ações diferentes. Vou chama-los por números. 

 Número um, é sem dúvidas o que mais tinha sintonia comigo, curtirmos as mesmas coisas, vivemos adolescência semelhantes, riamos das mesmas merdas, eramos escrotamente sinceros demais. Te admirava. Uma vez nosso  chefe perguntou com quem eu adoraria jantar e colocou algumas opções no papel, o número três e quatro estavam no papel, eu escolhi o  número um, sim, você. Pois eu podia passar dias conversando com você, nunca ficava chato.

 Número dois, você não estava nesse papel que nosso chefe sugeriu o jantar, se não eu provavelmente teria escolhido você, eu tinha uma queda gigante por você. Contei isso um dia pra aprendiz que era minha amiga, do nosso setor, ela disse que não fazia ideia que eu disfarçava muito bem. Mas é claro, você é comprometido, então eu simplesmente ignorava as brincadeiras que você fazia as vezes comigo " você é um avião" ou "cabelão eim" não lembro o contesto, mas eu estava acostumada a rir e fingir que não ouvia essas cantadas que eu não sabia se tinham um fundo de verdade, ou se era uma brincadeira que você e o número quatro gostavam de fazer. Você era divertido, prestativo, educado, muito bem vestido e muito cheiroso. Irritantemente cheiroso e prestativo. Eu notava isso sempre que meu computador dava pau e eu reclamava pra você. Você vinha me ajudar sempre, eu adorava essa parte. Mas é só isso, nós sempre nos respeitamos muito, você é comprometido.

 Número três, pretendo te levar pro resto da vida. Você é um amorzinho, sua sinceridade, seu sentimentalismo, sua bondade me fizeram te amar mais que todos eles. Você se tornou uma das minhas melhores pessoas da vida, sinto como se a vida tivesse me tirado alguém semelhante a você e se arrependido ao ver que eu não aguentaria, e então me dado você. Chegar, abrir minha gaveta e encontrar bolinhos ou pão de queijo me fazia sorrir e querer chorar ao mesmo tempo. Meu amigo falecido me levava bolinhos do nada, que nem você. Isso me deu tanta esperança que a vida não era tão injusta. Observar você ser quem você é, sofrer com isso e ser a pessoa que você confia pra conversar sobre, me fez se sentir importante e necessária novamente. Você me salvou de tantas formas.

 Número quatro, sim foi com você que sonhei, o motivo que vim escrever pra esquecer, mas achei injusto não dar um espaço na história para todos os mosqueteiros. Você era a figura marcante do setor, o rosto bonito de lá, é algo que se notava já no primeiro oi, não tinha como negar isso. Ao contrário do número dois, que eu tinha uma enorme queda, mas foi algo construido com o convivio. No inicio, você era só o colega bonito da hora do intervalo, só isso. Depois de outubro ou novembro, aquelas tuas férias, tua recém liberdade você mudou. Eu ouvia da sua fama, o conquistador e seus amigos não falavam bem de você, sendo bem honesta. Provavelmente foi isso que motivou minhas não reações. Nosso chefe sempre chamava você na sala dele, eu normalmente estava lá já, fofocando, perdendo tempo fazendo nada, então você aparecia, sentava numa cadeira ao meu lado e observava as cameras junto com nós e ouvia os comentários junto comigo, você só concordava ou ria, outras vezes tinhamos que dizer números pras apostas dele. Os outros talvez não notassem, mas você era um dos que passava mais tempo naquela sala junto comigo e nosso chefe, mas normalmente eramos chamados pra atividades inúteis, ver sites, escolher coisas para ele comprar, ou as típicas apostas, o que acontecia nesses momentos, é que as vezes nosso chefe simplesmente tinha que sair, ou atender uma ligação. E ai, ficavamos nós lá, esperando ele, foi nessas que você começou a... Não sei até hoje o que era aquilo. Minha primeira lembrança de você que não esqueço foi aquele dia do perfume, era o mesmo do meu amigo falecido, lembro que chorei nesse dia por causa disso. Então começaram suas ações que eu nunca entendi. Na sala do nosso chefe, você empurrando minha coxa com a sua, medindo nossos pés e comentando do tamanho deles. Arrumando meu gorro ou colocando meu capuz da blusa em mim e sorrindo ao me olhar entulhada de agasalhos. Você pegando na minha mão, comparando o tamanho delas, ou me carimbando, ou rabiscando. Na hora da limpeza da sala que todos migrava. Pra um lado, você mexia nas minhas coisas, rabiscava elas. Depois começaram as cantorias pra mim, eram idiotas, mas eram pra mim pois tinham meu nome sempre, eu mandava você se calar pois cantava mal. Você sempre enrolando pra assinar os treinamentos quando ia coletar eles de um por um, enrolando com as canetas. As brincadeiras bobas semanais do "vamo" que eu ignorava. E o dia estranho de comemoração do meu aniversário que você apareceu junto com os meninos sem tomar banho, sem trocar de roupa, podre de bebado. Você mexeu no meu celular, no meu lanche, na minha mão e na hora que eu fui ao banheiro, você cochichou no meu ouvido um "não deixe essa noite acabar aqui" eu não te vi, nem olhei, fiquei em silêncio, escolhi fingir que não ouvi nada. Quando voltamos pra mesa você me olhava esperando que eu dissesse algo, mas você estava muito bêbado, muito. Eu pedi que você fosse pra casa descansar parasse de beber e não fosse dirigindo. Você ficou lá quando seu amigo já tinha ido embora esperando algo, eu te mandei pra casa, e foi só o que aconteceu depois você foi embora. Depois seu amigo disse que você tinha dito que pegaria eu e minhas amigas. Foi meio decepcionante saber isso, mas por outro lado eu sabia que você tinha essa necessidade de se aparecer, talvez por você ser tão fechado, calado. O nosso passeio curto no seu carro, foi desesperador, como uma montanha russa, exatamente o tipo de ação desesperada de quem quer chamar atenção. Me preocupo com você de verdade, te acho um pobre garoto perdido. Mas pra mim, naquele ano foi importante você ser tão gentil comigo, suas bobeiras infantis pra chamar atenção, me faziam esquecer o luto as vezes e ficar pensando " qual o problema dele, porque ele fez isso". Número quatro, você foi minha confusão favorita daquele ano. Assim como os outros, você é um amigo importante, mesmo que seja um babaca.

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Imperfeição

Tem uma luz do carro que raras vezes funciona normalmente.
Na maioria dos dias que ligo ela, só a mais fraca acende.
No decorrer do trajeto a luz normal acaba ligando.
Tem vezes que quando a normal liga a fraca apaga.
Algumas outras elas funcionam em conjunto após um percurso.
E tem aqueles dias, que elas ligam todas juntas, funcionando normalmente.
Quando eu realmente preciso de uma visibilidade nitida, ligo a luz alta para conseguir seguir adiante.
Por que não troco a luz?
Ela não me incomoda.
Coisas falhas não me incomodam.
Ela é como nós.
Imperfeita, falha, continua mesmo que sem toda sua força, quando necessário da um jeito de seguir, as vezes completa, muitas vezes não, tentando se normalizar durante o caminho.
E eu acho a imperfeição linda e digna.
O ser humano é perfeito, sendo imperfeito.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Saber

 Eu acredito que todos nós temos um tempo determinado aqui, quando chega nosso momento a gente vai, não importa o quanto você lute contra isso.

Vi um video um desses dias e ele perguntava "a criança que você era ficaria feliz com quem você se tornou hoje?" Minha resposta é bem vaga, acredito que ela não se importaria, já que ela não se preocupava com o futuro, só queria que o amanhã chegasse para poder brincar mais.

No final do colegial me disseram que eu tinha que tentar um curso na faculdade, eu não fazia ideia do que tentar, pois nunca sonhei em ser algo. Eu não conseguia pensar em uma coisa que eu tivesse que fazer o resto da vida.

Parece tedioso não? Fazer a mesma coisa o resto da vida.

Quando terminei a faculdade eu não sabia exatamente do que eu queria trabalhar, só tinha certeza que precisava trabalhar.

Não sei como é ter sonhos de futuro. Eu nunca liguei pra isso, não era um ideal para mim. Só sempre planejei ter uma casa, cães e um carro, mas isso só depois que eu notei que precisava de motivação pra trabalhar.

Então, criei esses objetivos para mim. 

Bem simples né?

O tipo de casa? O tipo de carro? Quantos cães? Nunca planejei, costumo sempre esperar o último momento pra então decidir "é isso" já que costumo mudar de opinião.

Hoje, eu queria saber como me livro do que sei.

 Logo eu, que não me gosto de spoilers, tenho algumas certezas da minha vida.

Você já se perguntou como vai morrer? Quando vai morrer?

Acho que ninguém planeja, ou pensa nessa grande certeza do futuro.

Eu tenho uma ideia de como vou morrer, e em qual faixa de idade. Sei quanto tempo ainda tenho com saúde, ou, apenas uma vida normal no caso. Sei o que vai me matar e já assisti algumas possibilidades de futuro bem ruins pra mim.

Tem coisas na vida, que definitivamente não é nada bom saber.

Mas essa é a vida né, uma caixinha de surpresas, sejam elas boas ou ruins.

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Penumbra

Sinto os ventos por entre os vãos dos meus dedos, observo na penumbra o contorno dos meus dedos, iluminados apenas pela luz do farol.
Liberdade, é a sensação.
Deslizar sozinha pelo escuro ao som de uma música qualquer.
Lembro de você. Obrigada, por ter me ensinado a controlar essas asas grudadas ao chão.
Eu sei que você amava também, essa sensação e hoje eu entendo.
Queria que você pudesse sentir de novo.
Às vezes, ainda me permito sentir sua falta.
Essa semana falei de você para algumas pessoas e não chorei, foi a primeira vez.
Tenho pensado em ir visitar aquele lugar frio. Sem esperar nada em troca, simplesmente sinto que deveria ir, quem sabe nesse ano, após tantos anos, eu vá.
Ainda associo a você muitas músicas que ouço.
Afinal você é único e insubstituivel.
Também sinto falta dela, vez ou outra.
Mesmo tendo acrescentado mais de dois amores na minha vida depois de vocês...
O amor ainda dói, todas as vezes que o vento gelado atravessa por esses espaços vazios que vocês deixaram na minha vida, que não consegui preencher.
Ninguém encaixou, cada ser tem uma forma única.
Tenho me acostumada a ser incompleta.
Me sinto diferente de uma maneira boa, com todas as cicatrizes que não vão sumir.
Vocês me ensinaram muitas coisas enquanto estavam aqui e várias outras quando se foram.
Se eu não perdesse vocês, eu não teria me tornado quem sou hoje.
Obrigada, por me melhorarem até mesmo com a ausência de vocês.
Tudo na vida tem um motivo, talvez esses 8 anos com vocês, e os outros sem vocês, tenham uma razão afinal.
Amor é felicidade e também é tristeza.
Vocês me ensinaram isso isso da maneira mais linda e dolorosa.
Sempre vou amar vocês.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

Sem, com

 Sem música, sem lembrar, sem lágrimas, sem dor.

Com música sou o que quero esquecer.

Ocupada, sem mente livre pra lembrar, se entulhar de coisas pra não ter tempo de sentir.

Com tempo livre sou uma fita velha rebobinando até estragar.

Sem nada, é fácil.

Com tudo, é difícil.

Sem é quem me tornei pra viver.

Com é quem eu fujo, pra não mais ser.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Quanto tempo?

Quanto tempo ainda vou levar pra não sentir o peso, todas as vezes que lembrar?
Quanto tempo leva pra eu não sentir tudo na pele de novo?
Quanto tempo leva para parar de pensar "e se" ?
Quanto tempo leva pra gente sentir vontade de ser feliz de novo?
Quanto tempo leva pra aceitação dar lugar a esperança?
Quanto tempo leva para não recordar?
Quanto tempo leva pra não estar aos pedaços mais?
Quanto tempo leva para não chorar mais?
Quanto tempo leva pra parar de fazer falta?
Quantos dias? Quantos meses? Quantos anos?
Quanto de mim ainda precisa morrer para seguir em frente?
Quanto tempo leva pra não amar mais?
Quanto tempo leva pra eu não olhar pra tras?

É o fim

 A morte é o fim pra bem mais de uma pessoa.

A morte é o fim de uma vida.

É o fim de sentimentos.

É o fim de vários possíveis futuros.

É o fim da esperança.

É o fim de vários amanhãs.

É o fim dos risos.

É o fim da paz.

É o fim da leveza.

É o fim da positividade.

É o fim da nossa inocente criança interior.

E é o início, de uma longa vida carregada, pesada, sem sonhos.