sexta-feira, 6 de novembro de 2020

No ano que vem

Naquela passarela onde as luzes da cidade brilham numa imensidão de se perder de vista, a minha visão preferida de todos os fins de tardes trabalhados, onde a escuridão faz tudo parecer mais bonito, é o lugar onde mais me doi. Ver tudo aquilo, e pensar que você nunca verá, será que você também já viu? Espero do fundo do coração que sim.

Pensei em ir ver sua lápide no dia de finados, mas você não está lá, você não está em lugar nenhum e está em todos os lugares.

Eu falo muito de você para os outros, eu tinha um amigo que isso, ou aquilo, falo de você no passado, como se não lembrasse de você todos os dias e não chorasse por você todas as semanas, falo como eu comento sobre o clima de ontem, como se estivesse lá, e não estar fosse normal. Falo como se eu não sentisse sua falta o tempo todo e tudo estivesse no passado. Queria não ser assim, só que eu não sei ser honesta comigo em publico. Transparecer era com você, não comigo. Quando menos espero estou fazendo alguém rir, enquanto choro por dentro.

Ser assim, me dói tanto agora. Dizer que estou otima sendo que eu estava chorando no volante minutos antes.

Era ótimo ter você, ser mau humorada e chata quando eu tava de mau humor, chorar se eu sentisse vontade e rir em horas felizes. É tão dificil ser amada pelos outros mostrando quem somos realmente. E ser valorizada e compreendida pelo todo. Como era com você.

Pensei em guardar esse galo daqui do lado da cama, os percevejos coloridos da parede, os livros, as miniaturas, a camiseta, os bilhetes e as fotos. Assim eu te esqueceria aos poucos, doeria menos, porém não são as coisas que me deu que me lembram você. Minhas memórias parecem querer eternizar o replay em você, e memórias não tem como apagar.

Fazem exatamente cinco meses que eu te perdi. Que eu me perdi. Que tudo está errado, que nada está bem, que tudo me dói e que tudo é saudade.

Que falta me faz, ser protegida por você.

Me sinto como um navio quebrado perdido em alto mar, em uma tempestade sem fim e sem um farol pra me guiar.

Espero que você esteja bem, porque eu não estou. E se você tivesse ideia do quanto tem me feito sofrer, tenho certeza que você choraria ai de cima. Logo você que só me trazia conforto e risos está acabando comigo.

É isso, eu não to preparada pra viver isso aqui sem você, tá muito difícil.

Talvez no ano que vem, talvez eu consiga não sentir mais tudo isso, talvez doa menos. Talvez. Mas só no ano que vem.

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