terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Querido Bastião

Fazem anos, mas a sua falta ainda é sentida.
Estou aqui pra lhe contar que o mundo não tem sido nada fácil, eu tive que aprender a andar de bicicleta, pois desde que você se foi, não há quem me carregue na garupa. Tenho aquela foto nossa pendurada no meu varal de fotografias, o meu vestido rosa que você comprou pra eu está guardado, mesmo que eu odeie rosa. Você sabia? Eu odeio rosa, acredito que se eu me importasse com cores naquela época e lhe contasse, você me compraria um lindo azul. Afinal você fazia tudo o que eu queria. Você sabia que no mundo de agora as pessoas não se importam com o que você quer? Na grande realidade, elas não se importam com nada além de si mesmas. Lembro como você se importava em me fazer sorrir, lembro como você se importava em fazer quem eu amo feliz, por isso meu irmão também tinha uma árvore dele no seu quintal, por isso você atendia os pedidos da minha mãe. Sabia, que agora as pessoas dizem que te amam, mas te proibem de você ver quem ama? Eu não consigo entender como se ama sendo egoísta. Eu lembro que minha madrinha era diabética, e sempre tinha aqueles pães ruins, integrais e adoçante na mesa, mas, você lembra como você enchia o caqui e os morangos de açucar? Em uma casa tem espaço pro adoçante e pro açucar não é? Você sabia que hoje em dia é só uma das pessoas do relacionamento que decide? As diferenças não podem existir mais. Lembra dos dias vendendo caldo de cana? Acredita que ainda vendem? Eu adoro caldo de cana, será que é por lembrar você? Ei padrinho, você lembra? Dos dias indo nos seus parentes de táxi, em que eu nunca passava mal dentro do táxi? Você sabia que eu sou claustrofobica? Eu não era né? Eu não passava mal dentro de carros fechados não é mesmo? Mas agora eu passo,  muito mal. E sabe qual é a única memória traumatizante que eu tenho dentro de um carro? É do seu velório. Meus pais não me deixaram sair do carro e vê-lo uma última vez, eu lembro de chorar e gritar, não tão claramente, pois eu só tinha 7 anos, por ai. Você sabia que eu já tive três formaturas, eu vou renovar minha habilitação esse ano, e que eu não gosto mais de gatos? Eu queria te dar ótimas notícias, e dizer que o mundo está melhor, e você não iria precisar mais do seu cigarro pra se acalmar, e então você não teria ido tão cedo, e não teria me deixado. Fazem tantos anos, mas quando me acontecem coisas muito ruins, eu lembro de você e sinto sua falta. Minha mãe me perguntou esses dias, se eu sentia falta de alguém. Eu só disse dois nomes. Talvez te perder tenha me ensinado a não se apegar, pra não amar, e ver quem você ama ir embora. Pois eu não sei lidar com perdas, por isso ainda tenho aquele galo feio que ficava na sala de vocês, o seu cinzeiro verde, enorme, mesmo que eu não fume, e aquele radinho a pilhas velho que nem funciona mais. Você tinha muitos rádios, me lembro, qual estação será você ouvia? Sabia que agora, não existe mais aquela sintonia? O amor.

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