quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Só eu sei...


Hoje não é um daqueles adoráveis dias que vou acordar, me arrastar até a frente da TV embrulhada em um cobertor, e assistir desenhos animados com aquela xícara de Nescau preparada por minha mãe. Sem Nescau, sem desenho, sem meu irmão ao lado, nada disso. Hoje eu acordei as 5:15, enrolei o quanto pude, ou seja, alguns minutos, fingindo que mais 5 minutos mudariam algo, levantei meio atrasada, me arrumei e sai correndo pra pegar o ônibus, ir a universidade, depois estágio, a noite estudar de novo, e quando eu chegar finalmente em casa, desmoronar na cama, pra repetir a rotina até sexta-feira. Rotina, odeio essa palavra, lembro-me quando depois da escola não havia nada planejado, nada de preocupações e responsabilidades.
As tardes em que eu e meu irmão íamos reclamando comprar pão para o café, se eu pudesse faze-lo todas as tardes novamente faria, mas dessa vez, sem reclamar. Lembro vagamente de quando minha mãe me obrigava a comer, achava que eu estava muito magra e ficaria anêmica. Bem, eu nunca fiquei anemica como pensavam, tive pneumonia recentemente, vi o desespero nos olhos dos meus pais,  e deve ter sido o que me motivou a resistir, quem diria que o que me deixaria doente seria minha rotina. Um professor, me disse a alguns dias, que quando o filho fica doente, o médico tem que medicar os pais e não apenas o filho, o que  acredito ser verdade, pais são pais, e acho provável que eles sejam o motivo de estar aqui relatando estes fatos.
Lembro das tardes em que sentávamos na área de casa, conversa vamos, riamos e tomávamos nosso chimarrão. Seria ótimo ter algum tempo pra isso, além do fim de semana mas com pouco tempo ou não, ainda seguimos essa tradição, só que assistindo seriados, eu e minha mãe. Ao menos nós duas a mantemos.
Era ótimo fazer só coisas agradáveis, mas o mundo é cruel, e colocou cada um de nós em uma posição diferente. Minha mãe trabalha o dia todo, está sempre cheia de problemas embora tente manter o sorriso pro mundo e ela seja uma alma realmente alegre, eu sei que ela chora, sofre por cada injustiça, por cada palavra, pelas escolhas erradas que fez ou que nós fazemos, e eu não posso fazer nada, apenas ser forte por ela. Meu irmão, não sei, desde que começou a namorar não foi o mesmo, e agora que casou, eu nem o reconheço, fica difícil olhar pras suas inúmeras faces e dizer qual é real, as vezes penso que nem mesmo ele sabe. Meu pai, a pessoa com personalidade tão parecida com a minha, me assusta com sua imprevisibilidade, as vezes temo ficar como ele.
Há momentos que me pergunto se os tempos já foram bons... devem ter sido, as vezes são, porém rápidos como um flash, eles se vão, e os dias complexos voltam.
  Família é algo complicado, cada um tem a sua, ou não tem, e desejaria ter. Mas quem tem, sabe, cada uma tem suas individualidades e problemas. A minha teve muitos.
Quando as pessoas nos conhecem, acham incrível nossa sintonia. O que tenho a dizer sobre isso? Só quem esteve no meu lugar sabe.
Dizem que Deus não te dá uma cruz maior do que você consiga carregar, então devo ser peso pesado.
Quando o desequilíbrio bater, quando as cordas que te prendem ao chão se desatam, quando suas estruturas começarem a ruir, e você não se achar forte pra sobreviver e impedi-los de naufragarem, feche os olhos, e ore, foi o que fiz.
Surtos, gritos, moveis quebrados, objetos rachados, papeis pra todos os lados, loucura.
Loucura.
Essa é a palavra pra aquela época em que tudo se iniciou, em que tive que aprender a sobreviver, a ser forte, a aguentar calada.
Quanto mais calada eu ficava, mais barulhenta minha mente ficava, eu estava apenas tentando ignorar o que acontecia em minha volta. Fingir que não era minha realidade, que eu não precisava estar nela. Más era minha vida, ninguém pode vive-la no meu lugar.
A insanidade toma conta, e você não consegue mais prever um dia da sua vida. Tive muito medo. Aprendi a ouvir musicas em um volume que tornasse possível ouvir o que acontecia em minha casa, passei a assistir alucinadamente pra ocupar a mente, fugir da minha realidade. Não funcionava, pois naqueles fins de semana quando ele trazia problemas, quando ele era um grande problema, eu sabia, que seria mais uma daquelas terríveis noites, haviam gritos, broncas, batidas, e eu voltava a ficar com muito medo.
Sabe do que eu tinha mais medo, do que da insanidade que era o estado mental do meu pai? Medo do que ele faria com meu irmão, ou até com minha mãe. Aprendi a sair do quarto e assistir a loucura que havia se tornado minha vida, aquela vida que eu adorava, que me parecia tão boa e normal. A vida que eu nunca mais tive.
Aprendi a ser forte, a ser louca quando necessário, já que todos pareciam estar se arrastando e tentando juntar seus pedaços antes que a loucura voltasse. Porque nós sabíamos que ela nunca se ia, ela sempre estava ali, nele, armando a próxima emboscada para nós. Mas meu irmão estava bêbado demais pra fazer algo, minha mãe sempre foi sensível demais, e acabava chorando quando deveria assumir o controle, e eu... bem eu tentei manter todos vivos, inteiros. Não sei se deu certo, não mesmo, pois cada um sabe do seu interior, e se eu que sempre fui a menos vulnerável, não fiquei bem, imagine eles.
Tem coisas, que você nunca esquece, nunca vou esquecer aquele tempo. Se fosse possível faria, mas faz parte de quem sou, ser corajosa é uma das minhas grandes qualidades. Uma qualidade involuntária, descobri que ela surge nos momentos de necessidade, não por você querer.
O que é insanidade? Pra mim, é quando nada esta sob controle,  eu odeio não ter as coisas sob controle. Essas coisas que começaram a nove anos atrás, lembro como se fosse hoje, cada etapa. Obrigada Deus, por ter me feito forte pra supera-las, sempre que uma crise volta, eu respiro fundo, pois em algum momento passará. Só é preciso paciência.
Admito que as vezes fico indignada com a visão que as pessoas tem de quem é insano, com a maneira que acreditam ser, ou quando me perguntam como é. Bem, só vivendo pra saber. As coisas são assim, ninguém sabe de ninguém, pois cada um tem sua própria vida, e ainda assim, persistem no erro de achar que sabem.
Não posso eu dizer que sei sobre alguém, ou a vida dele, e vice versa. O grande fato é que, todos temos nossos problemas, mas existe diferença entre aqueles que querem descontar em meio mundo, e os que conseguem enfrenta-los sozinhos, sem deixa-los transparecer a todos. Qual a necessidade de ser um coitadinho? Penso eu ser muito mais gratificante ser a pessoa que quando alguém descobre o que você passou, pensa que você é um herói por carregar um sorriso no rosto todos os dias, sem se lamentar. Ninguém gosta de coitadinhos, mas o herói... ah desse todos gostam, e muito. Então, obrigada a minha família por serem heróis, todos nós. Por viver em um mundo insano com um sorriso no rosto, e os problemas na mochila, pois afinal nós somos adultos, não podemos mais agir como crianças.

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